Dossiê mostra que perímetros irrigados violam direitos de comunidades rurais

Dossiê mostra que perímetros irrigados violam direitos de comunidades rurais

Foto: Francisco Valdean

Foto: Francisco Valdean

Por  Camila Nóbrega – Comunicação do III Ena, com informações de Anna Beatriz Anjos- Revista Forum e Mariana Branco – Agência Brasil

Pesquisa inédita coordenada pela Universidade Federal do Ceará (UFC), apresentada no último dia 17, durante o III Encontro Nacional de Agroecologia (III Ena)  mostra que as expectativas para o futuro não são nada animadoras

A segunda fase do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) prevê vultosos recursos – R$ 6,9 bilhões – para a expansão dos perímetros irrigados no semiárido. A princípio, a notícia foi muito comemorada, já que significa dobrar a área existente hoje. Atualmente, são 193.137 hectares irrigados no semiárido e, com os novos projetos, novos 200 mil hectares estão previstos. Uma pesquisa inédita coordenada pela Universidade Federal do Ceará (UFC) mostra, porém, que as expectativas para o futuro não são nada animadoras. Em outras regiões brasileiras, as extensas áreas irrigadas artificialmente são responsáveis por violações de direitos humanos e expansão do agronegócio. As consequências mais graves são a expulsão dos pequenos agricultores e contaminação por agrotóxicos.

Exames médicos feitos em 545 trabalhadores de regiões próximas a cinco perímetros – dois no Rio Grande do Norte e três no Ceará -, realizados ao longo de um ano e meio, apontam que 30,3% apresentavam intoxicação aguda. Mais: a prevalência de câncer é 38% maior entre os agricultores que moram em perímetros irrigados, em decorrência da chegada de grandes empresas do agronegócio, com uso intensivo de agrotóxicos.

O agronegócio não tem respeito

“O agronegócio não tem respeito algum pelo semiárido. Todos os pequenos agricultores sabem que só se colhe um abacaxi por ano no pé. Há empresas que colhem até três. Eles veem a terra como substrato para colocarem toda química necessária para elevar a produtividade. Nem um respeito aos trabalhadores, que estão adoecendo, morrendo. A situação é muito grave e será pior se o projeto continuar”, disse a médica Raquel Rigotto, professora da Universidade Federal do Ceará (UFCE), que concedeu entrevista durante o III Encontro Nacional de Agroecologia, em Juazeiro, na Bahia.

O dossiê “Perímetros Irrigados: 40 anos de violação de direitos no semiárido” (http://dossieperimetrosirrigados.net/), é resultado do trabalho de 23 pesquisadores de diversas áreas, entre elas Geografia, História, Direito, Meio Ambiente e Saúde.  Além da UFC, participaram do estudo pesquisadores da Universidade Estadual do Ceará e da Universidade Estadual Vale do Acaraú, também naquele estado. Contribuíram ainda a Universidade Federal do Rio Grande do Norte e a Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.

“Os perímetros irrigados vêm evoluindo no sentido claro de ser um espaço geopolítico do capital no semiárido. Se, em um pedaço pequeno de terra, como o Jaguaribe-Apodi, a gente já vê um estrago enorme, imagina em 400 mil hectares?”, questionou Rigotto.

De acordo com a professora, que é também representante da Rede Brasileira de Justiça Ambiental e da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), o estudo partiu de uma demanda do Movimento 21, que reúne movimentos sociais do campo, como Cáritas Diocesana de Limoeiro do Norte, Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Violação de direitos

Os camponeses denunciam graves violações de direitos humanos nos territórios que já convivem com esta tecnologia e afirmam que as áreas de perímetro irrigado facilitam a ocupação de terras por parte de empresas nacionais e transnacionais do agronegócio que, a partir da exploração dos recursos naturais e da mão de obra local, cultivam commodities para exportação. Este modelo de agricultura vai na contramão das práticas agroecológicas adotadas pelos pequenos agricultores da região, o que significa diversidade de cultivos, respeito ao ciclo natural de produção, trabalho digno e a administração de pragas sem uso de agrotóxicos, entre outras características.

A conclusão do estudo, que tem como bases casos sobre os perímetros Baixo Acaraú, Baixo-Açú, Jaguaribe-Apodi, Santa Cruz do Apodi e Tabuleiro de Russas, é que há violação de sete direitos das comunidades: direito à terra, à água, ao meio ambiente, ao trabalho digno, à saúde, à cultura e à participação política.

De 24 amostras de água coletadas de poços profundos para o dossiê de Perímetros Irrigados, todas estavam contaminadas. Em uma delas, foi detectada contaminação por dez princípios ativos diferentes. Os exames médicos feitos em moradores levaram em conta os critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS), ou seja, se o paciente apresentar três ou mais sintomas 72 horas após a exposição ao agente químico, a intoxicação é considerada provável.

O mais preocupante, segundo a professora Raquel Rigotto, é que 56,5% desses trabalhadores não procuravam assistência médica. Eles se acostumam a sentir sintomas como náuseas, dor de cabeça, pruridos na pele. Aos poucos, forma-se uma intoxicação crônica que pode levar à morte. Uma vitória recente  do movimento local foi exatamente o reconhecimento de uma morte por intoxicação por agrotóxicos na região de Limoeiro do Norte, no Ceará. A empresa Belmonte pagará R$ 330 mil de indenização à família de um trabalhador.

Além da ameaça à saúde, a professora critica outras consequências da implantação de perímetros irrigados, como a desapropriação de terras para a construção de algumas dessas estruturas.

Legenda: O agricultor Francisco Edilson Neto pode ser afetado pelo Perímetro Irrigado Santa Cruz do Apodi, que está sendo construído no Rio Grande do Norte. "Nós estamos perdendo os territórios. Se a gente não lutar, não vamos ter mais nenhum camponês no próximo ENA”, Foto: Francisco Vldean

Legenda: O agricultor Francisco Edilson Neto pode ser afetado pelo Perímetro Irrigado Santa Cruz do Apodi, que está sendo construído no Rio Grande do Norte. “Nós estamos perdendo os territórios. Se a gente não lutar, não vamos ter mais nenhum camponês no próximo ENA”, Foto: Francisco Vldean

O problema é de todo mundo, não só de Apodi

Francisco Edilson Neto, líder do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Apodi, é um dos agricultores ameaçados pelos perímetros irrigados. A Chapada do Apodi, região em que vive, já foi ocupada pelas grandes corporações em seu lado cearense – ela se localiza na divisa do estado com o Rio Grande do Norte. Desde quando foi inaugurado o PI Jaguaribe-Apodi, diversas famílias agricultoras perderam seus sítios para empresas como Fruta Cor, Bananas do Nordeste S/A e Del Monte Fresh Produce. Agora, um novo sistema de irrigação (PI Santa Cruz do Apodi) está sendo construído, dessa vez na parte norte-rio-grandense. “Esse projeto vai expulsar 6 mil pessoas de suas terras”, afirmou Neto.

Em sua fala, ele destacou ainda a importância de se analisar e comparar diversos casos semelhantes, como fizeram os autores da pesquisa. “É muito interessante que a gente junte esses conflitos. O problema é de todo mundo, não só de Apodi. Nós estamos perdendo os territórios. Se a gente não lutar, não vamos ter mais nenhum camponês no próximo ENA”, declarou.

Quando é o caso de desapropriar

A questão da desapropriação é vivenciada no momento por habitantes de comunidades próximas ao perímetro de Santa Cruz do Apodi, previsto para ser implantado na porção potiguar da Chapada do Apodi, na divisa entre o Rio Grande do Norte e o Ceará. Já foram publicados decretos anunciando a desapropriação de moradores. A estimativa do presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Apodi, Francisco Edilson Neto, é que cerca de 600 famílias serão desalojadas de suas terras, de um total de 2,6 mil famílias que vivem na região.

As comunidades têm lutado contra a construção do perímetro, iniciada em 2013. Agricultores e representantes do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST) ocuparam o local onde acontecem as obras. O Ministério Público Federal analisa o caso.

“A barragem de Santa Cruz (de onde virá a água para o perímetro) não tem água para irrigar 10 mil hectares (como está previsto no projeto). Metade (da água da barragem) está comprometida com esse projeto. Além das desapropriações, haverá diminuição na quantidade de água, contaminação. Por que não entregar essa água à agricultura familiar?”, questiona ele.

Raquel Rigotto acrescenta que, em comunidades nas quais os moradores não foram desapropriados e tentaram conviver com os perímetros, houve problemas de elevação na conta de energia. “Funciona como em um condomínio, em que as despesas são rateadas. Uma agricultora relatou uma conta de R$ 1,2 mil”.

“O interessante foi que viemos com os seis direitos violados e eles próprios identificaram o sétimo direito, à participação política [por não estarem sendo ouvidos quanto à sua opinião sobre os perímetros]”, conta Raquel.

O III Ena acontece em Juazeiro (BA), de 16 a 19 de maio.

 

A agroecologia brasileira avança e faz história

A agroecologia brasileira avança e faz história

Foto:Francisco Valdean

Foto:Francisco Valdean

Por Najar Tubino – Carta Maior

O programa nacional de agroecologia e produção orgânica, lançado pelo governo federal no final do ano passado começa a ser implantado. 

 

Juazeiro (BA) – É muito difícil reproduzir os fatos e informações de um encontro nacional, com representantes de praticamente todos os estados brasileiros. Hoje, por exemplo, os territórios visitados pelas caravanas agroecológicas, com seus representantes, discutiram as situações locais, os problemas e as práticas vencedoras. O detalhe é que são 13 tendas. E todas funcionam ao mesmo tempo.

À tarde, pelo menos 800 mulheres – e alguns homens – se reuniram na plenária do Grupo de Trabalho de Mulheres, da Articulação Nacional de Agroecologia – o lema é: Sem Feminismo não há agroecologia. Para quem conhece a realidade do campo e das agricultoras familiares sabe que não se trata de uma metáfora. Algumas representantes viajaram longas distâncias, deixaram suas casas, os filhos, o cuidado da casa, da roça, do trabalho cotidiano.

Sem dúvida, a maioria dos participantes do III ENA são mulheres. No ano passado na Chapada do Apodi (RN), comparei o trabalho e a resistências das sertanejas, das mulheres do semiárido, com a resistência das plantas, das árvores da caatinga. Hoje, encontrei na estande da Cooperativa Agropecuária Familiar de Canudos, Uauá e Curaçá (COOPERNUC) a árvore que representa a caatinga, definida pelo escritor Euclides da Cunha, que cobriu a Guerra de Canudos como jornalista, como “árvore sagrada do Sertão” – é o umbuzeiro, nome científico “Spondias tuberosa Arruda”, uma espécie endêmica do Bioma Caatinga, que conta com 1.500 espécies vegetais.

Muito mais que resistir
O povo de Canudos, durante a guerra, comia os frutos do umbuzeiro, ricos em vitamina C, e coletavam água de suas raízes, que foram tubérculos. São árvores centenárias, demoram mais de 30 anos para produzir frutos. A Embrapa Semiárido, em conjunto com o IRPAA e várias outras associações de agricultores familiares tem difundido o plantio do umbuzeiro, mais de 40 mil mudas foram distribuídas. A COOPERNUC vende doces, geleias produzidos por 450 famílias dos três municípios citados, em 18 comunidades, e exporta para a França e a Austria. A ironia da caatinga, que recebe muito pouca chuva – média de 350 mm por ano -, e que tem um sol de rachar o cérebro, mas ao mesmo tempo, seus frutos são doces.

Porém, a luta dos agroecologistas é por mudanças no padrão de produção, contra os agrotóxicos, no modelo de desenvolvimento rural, na articulação das pessoas que vivem da terra. Isso não se faz de forma isolada. O mote do III ENA é: POR QUE INTERESSA À SOCIEDADE APOIAR A AGROECOLOGIA? Esta é a questão. Em primeiro lugar porque se a população urbana, e isso representa 80% do povo brasileiro, soubesse a quantidade de resíduos de agrotóxicos que consome diariamente, através das frutas, verduras, grãos, carnes e processados industriais, certamente mudaria seus hábitos de consumo. Mas se tal fato ocorresse, como suprir tamanha demanda?

Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos
Aí é que entra o PLANAPO, o programa nacional de agroecologia e produção orgânica, lançado pelo governo federal no final do ano passado e que começa a ser implantado. São várias ações que estão sendo conduzidas, claro, tudo dentro da burocracia oficial de um país do tamanho do Brasil. Conversei com Valter Bianchini, Secretário Nacional da Agricultura Familiar e secretário executivo da comissão interministerial sobre o tema. São 10 ministérios envolvidos. São muitas coisas que precisam ser adequadas à agroecologia e produção orgânica.
Começando por crédito, os entraves para liberar dinheiro, a forma como os agricultores e agricultores produzem e se organizam para vender. A própria certificação que é um negócio difícil, complexo e caro.

Também conversei com Marciano Toledo da Silva, coordenador do Movimento dos Pequenos Agricultores, também coordenador da campanha permanente contra os agrotóxicos, e que participa do Grupo de Trabalho chamado CNAPO – Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica – onde participam os representantes do governo, mas também da sociedade civil. Ele é agrônomo e ativista conhecido.

Bianchini mora num sítio em Colombo, a 25 km de Curitiba, já foi secretário da agricultura do Paraná e também é um profundo conhecedor da agricultura familiar mundial. Marciano detalhou as principais iniciativas “exequíveis” do Programa Nacional de Redução de Agrotóxicos – PRONARA, que deverá ser lançado em agosto.

Importância mundial da agricultura familiar e da agroecologia
Resumindo a conversa com Marciano da Silva: os eixos principais do PRONARA são: fim da isenção fiscal para importação, industrialização e comercialização dos agrotóxicos. Levantamento dos dados de gastos da saúde pública com as doenças provocadas pelo uso de agrotóxicos, não somente nos trabalhadores que lidam com os venenos cotidianamente. Não existe este levantamento no Brasil.

Reestruturação da infraestrutura oficial, como laboratórios – as análises de determinados resíduos são feitas no exterior -, além é claro da qualificação de profissionais e da contratação de novos. O Brasil têm 44 técnicos para analisar registros de novos produtos – são 400 a 500 pedidos na fila -, contando a ANVISA, o IBAMA e o MAPA.

Nos Estados Unidos são 800. Outros assuntos: monitoramento e responsabilização da cadeia produtiva de agrotóxicos. Desenvolver alternativas ao uso de agrotóxicos, afinal, trata-se de um período de transição. Principalmente adequar a legislação atual que enquadra fertilizante natural e fitossanitários como se fossem agroquímicos. Melhorar o sistema de informação, para que a população tenha aos dados reais da produção agrícola, e do que ela come.

Grupo internacional de apoio à agroecologia
Valter Bianchini esteve recentemente no Salão de Agricultura de Paris. Conversou com o ministro da agricultura francês sobre o assunto. A ideia dos franceses é que Brasil e França participem em conjunto, no âmbito da FAO, de um grupo formado por 10 países – 5 do Sul e 5 do Norte -, que apoiariam as práticas da agroecologia e da agricultura familiar. Aliás, na primeira semana de maio ocorreu no Chile um encontro latino-americano de agroecologia.

Bianchini diz que no mundo existem 500 milhões de produtores familiares, o que envolve um universo de 2,5 bilhões de pessoas, grande parte na China e na Índia, mas que o modelo de produção de todos eles é comum. São diversificados, trabalham com várias atividades, preservam o ambiente, que é responsável pela produtividade dos vegetais, da comida dos animais e também da água, e além disso, transmitem esses conhecimentos de geração em geração, durante mais de 20 séculos.

No caso brasileiro
O governo federal trabalha em várias frentes. A primeira é o compartilhamento do conhecimento, a Embrapa terá na agroecologia um dos seus eixos estratégicos. Ela precisa pautar seus pesquisadores, buscar o conhecimento das comunidades, que já praticam a agroecologia em vários polos espalhados pelo país, sistematizar, dar um cunho científico e difundir. Crédito orientado com assistência técnica, e para isso falta o decreto da presidenta Dilma Rousseff criando a Anater, a rede de extensão rural, cujo projeto já foi aprovado no Congresso Nacional. Com um detalhe que a extensão rural se voltará para assistir os produtores que trabalham no sistema orgânico, ou que decidirem fazer a transição. No acesso às sementes crioulas, ninguém faz mudança de plantio se não tiver semente orgânica, através da Embrapa, que mantém um banco de sementes crioulas, direcionar este material para produtores escolhidos que multiplicarão.

O Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) passará a comprar sementes crioulas. Também adequará as garantias como seguro e preço equivalência para os agricultores e agricultoras agroecológicas.Outro ponto é incrementar o programa para a juventude rural, segundo ele, um milhão de jovens estão envolvidos com a agricultura familiar, e esse pessoal não pode emigrar para os centros urbanos.

Instalação pedagógica do Território Bico de Papagaio discute conflitos no campo

Instalação pedagógica do Território Bico de Papagaio discute conflitos no campo

 

Os participantes da oficina foram convidados a conhecer os cheiros do território do Bico do Papagaio, através dos cestos com amêndoas do coco de babaçu e cupuaçu. Foto: Karol Dias

Os participantes da oficina foram convidados a conhecer os cheiros do território do Bico do Papagaio, através dos cestos com amêndoas do coco de babaçu e cupuaçu. Foto: Karol Dias

Por Karol Dias

“…queremos que plante essa terra, por ela quem sente paixão, quem põe com carinho a semente para alimentar a nação”.

Na manhã do segundo dia do III ENA (Encontro Nacional de Agroecologia), 17 de maio, diálogos em instalações pedagógicas expuseram a realidade e os desafios da agroecologia nos diferentes territórios do Brasil. O Território Bico de Papagaio, Tocantins, conduziu o debate em um desses espaços e teve como protagonistas as mulheres quebradeiras de coco organizadas e organizadoras de espaços, associações, cooperativas e movimentos de resistência ao avanço predatório de grandes empresas sobre a natureza e a vida de suas populações.

No início, os participantes foram convidados a lançar o olhar para a sociobiodiversidade da região através de produtos típicos colocados no centro da sala e, em seguida, perceber, por meio de encenações e falas, a realidade de mulheres que sobrevivem da quebra e beneficiamento do coco babaçu.

Conflitos e direitos

Os conflitos agrários e a contribuição de Padre Josimo, assassinado na luta em defesa do direito à terra para quem nela trabalha, foram trazidos nos seus discursos em tom de homenagem e também de indignação.

Para a quebradeira de coco Emília Alves da Silva Rodrigues, o crime foi uma forma de tentar enfraquecer a luta, mas, ao contrário, “a gente passou a brigar mais pelos nossos direitos”, conta.

A organização de mulheres reafirmando sua força e coragem na reivindicação por Reforma Agrária, educação, saúde e enfrentando o desafio de trabalhar sem uso de agrotóxicos em meio a produtores que utilizam e à empresas que ameaçam sua permanência na terra, foram assuntos de destaque.

Outra questão importante foi a criação da Escola Família Agrícola Padre Josimo, que trabalha a formação de Técnicos em Agroecologia, valorizando o campo enquanto lugar de possibilidades e de construção do bem viver, em contraponto ao êxodo da juventude.

O momento foi também de socializar a realidade de outros territórios, onde diferentes sotaques falaram de problemas semelhantes, tendo por inimigo comum os grandes projetos do agronegócio.

Alternativa pela vida

Assim, no diálogo aberto para a plenária foram trazidos os impactos expansão de canaviais em São Paulo; a desterritorialização de famílias camponesas, quilombolas e indígenas no Mato Grosso do Sul; o monocultivo de eucalipto, a especulação imobiliária, a extração de petróleo no pré-sal, a implantação de unidades de conservação em territórios indígenas, quilombolas e caiçaras, a construção do Mega Porto com mineroduto e distrito industrial  no Rio de Janeiro;  a luta pela terra, contra as siderúrgicas de carvão, a expansão da carcinicultura, instalação de parques eólicos e perímetros irrigados no Ceará; a luta pela demarcação de territórios indígenas no Acre; o monocultivo de dendê no Pará, entre outras.

Por fim, em reflexão a questão norteadora do III ENA: “Por que interessa à sociedade apoiar a agroecologia?”. A plenária respondeu que é “pela vida”, “pela saúde”, “para salvar a humanidade”, “garantir futuro para as novas gerações”, “salvar a mãe terra”, “manter a biodiversidade”, “sustentabilidade” e “bem viver”.

Nesse sentido, houve consenso de que essa é a alternativa ao modelo devastador do sistema de produção capitalista.

Mulheres à frente da agroecologia

Mulheres à frente da agroecologia

Plenária reforçou a posição de que é urgente a luta para posicionar a mulher dentro da agricultura e agroecologia. Foto: Fábio Caffe

Plenária reforçou a posição de que é urgente a luta para posicionar a mulher dentro da agricultura e agroecologia. Foto: Fábio Caffe

Por Camila Nobrega, do Canal Ibase e do FBSSAN

Em vez de sino, um batuque em galões de plástico e latas deu o primeiro chamado. O coro forte seguiu. No lugar de água benta, banho de cheiro da Amazônia. Nada de filas, a hora era de roda. Assim começou a plenária de Mulheres no III Encontro Nacional de Agroecologia, na tarde deste sábado (17/5). Em pauta a desigualdade de gênero e o machismo que está entranhado em cada relação, dentro e fora de casa, uma das principais lutas da agroecologia, que conta com centenas de grupos de mulheres em todo o Brasil.

Uma a uma, participantes de diferentes delegações falaram para uma plateia de cerca de 700 pessoas – mais de 80% de mulheres – em declarações que conectaram os conflitos vividos, trazendo à tona desde a dificuldade de acesso às políticas públicas até as relações com maridos e filhos. Por outro lado, as falas trouxeram a força da luta feminista dentro do movimento de agroecologia.

Eles não entendem

“Mexo com leite e gado. Trabalho duro, mais do que muito homem. Não estou aqui para falar mal do meu marido, mas, quando eu falei que vinha para o encontro, ele e meu filho disseram ‘você vai fazer o que lá?’ Eles não entendem, nós ainda somos muito desvalorizadas. Olhar a carinha de cada uma de vocês está me fazendo muito feliz. Eu vim mostrar que as mulheres têm valor, e é muito”,  disse  Ione Noronha, de Unaí, Minas Gerais.

Com o lema “Sem feminismo não há agroecologia”, as participantes fizeram discursos carregados de emoção, que evidenciaram os reflexos da sociedade patriarcal na agricultura. As mulheres falaram sobre a cultura de submissão das mulheres camponesas aos maridos, que muitas vezes não apoiam a entrada delas nos movimentos feministas, denunciaram a falta de acesso a crédito, discriminações – como a homofobia – e outras dificuldades enfrentadas no dia a dia.

A agricultora Rita Barbosa, pernambucana que hoje mora no Rio de Janeiro e faz parte da Rede de Agricultura Urbana, lembrou que as mulheres vivem diversos tipos de violência todos os dias no Brasil:

Uma grande ciranda fechou a atividade, marcando a posição de destaque das mulheres no movimento agroecológico. Foto: Fábio Caffe

Uma grande ciranda fechou a atividade, marcando a posição de destaque das mulheres no movimento agroecológico. Foto: Fábio Caffe

Grito de liberdade

“Quando as empresas tomam nossas terras, somos violentadas. Também somos violentadas nos nossos direitos a todo momento. Se a mulher tem marido, ela só tem acesso a crédito no nome dele. Se ela não é casada, tem muita dificuldade. Quem construiu o movimento de agroecologia foram as mulheres, precisamos dar nosso grito de liberdade e pressionar as instituições”

Rita pediu também um grito de guerra em apoio às adolescentes nigerianas que foram sequestradas por um grupo extremista islâmico Boko Haram. De acordo com organizações de direitos humanos, as menores foram obrigadas a se casar e, em alguns casos, os sequestradores as venderam como esposas por duas mil nairas cada uma (equivalente a pouco menos de R$ 30). A plenária apoiou, somando-se ao grito de centenas de entidades de todo o mundo que pedem a libertação das meninas.

No Brasil, os problemas são diferentes, porém não menos graves. Na última quinta-feira (15/5), uma camponesa foi encontrada morta no município de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro. Ela era militante do Movimento Sem Terra (MST) e morava no assentamento Zumbi dos Palmares, onde outras três pessoas já haviam sido assassinadas desde janeiro de 2013, devido ao forte conflito agrário na região.

“A gente reconhece o que foi feito pela reforma agrária nos últimos anos, mas é preciso falar o que não foi feito. Sou uma acampada de 11 anos e até hoje essa terra não saiu. A violência nesses espaços é muito grande, especialmente com mulheres e crianças. Somos violadas e o Estado é conivente”, disse Eliana Santos, da Federação dos Agricultores da Agricultura Familiar (Fetraf) da Bahia.

Selma Glória, do Movimento de Organização Comunitária (MOC), também da Bahia, lembrou a grande importância da bandeira feminista dentro da agroecologia.

Novas relações

“A agroecologia não é só agricultura sem veneno, é uma construção de novas relações, com a terra, com melhores condições para mulheres e para todos. Machismo não cabe aqui.”

As semelhanças nas declarações ultrapassam as fronteiras brasileiras. A equatoriana Maria de Los Angeles, representante do Movimento Agroecológico da América Latina e do Caribe (Maela), falou sobre a luta em toda a região:

“Não temos acesso aos meios de produção, às sementes, as decisões. Em espaços como o Equador, com grande migração para cidades e até outros países, as mulheres têm um papel essencial, de ligação com o território. Elas têm forte carga de trabalho, são elas que cuidam das sementes nativas, cuidam da família. 70% da população consome produtos de pequenos produtores e maior parte do trabalho já se sabe que é das mulheres.

Para ela, é urgente a luta para posicionar a mulher dentro da agricultura e agroecologia. Só com o reconhecimento do movimento feminista como um dos protagonistas a agroecologia poderá prosperar, na opinião da equatoriana.

Para Vanessa Schotz, do Grupo de Trabalho de Mulheres da Articulação Nacional de Agroecologia, que foi uma das coordenadoras da plenária, a plateia cheia deu o tom da importância do tema dentro do movimento do movimento.

Agroecologia transformadora

“Foi um momento especial, para a construção de uma agroecologia crítica a transformadora, com igualdade de gênero e autonomia política e econômica para as mulheres. “

Ao final, duas mulheres cantaram músicas compostas por si próprias. Uma delas foi Josefa Santos de Jesus. De lenço rosa do cabelo e lenço roxo – símbolo do feminismo – entoou, em ritmo semelhante ao forró, logo acompanhada pela plenária: “Mulher da roça, pele queimada, cabelo seco e mao grossa. Essas mulheres já vivem humilhadas, desde que nascem e não tem onde morar (…)  “Essa mulher, quando vai se aposentar, ela sofre humilhação que você tem que ver”

Uma grande ciranda fechou a atividade. O III ENA está sendo realizado na Universidade Federal do Vale São Francisco (UNIVASF), sob organização da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), com a participação de diversas entidades que compõe esta rede, além de movimentos sociais do campo, da saúde, da economia solidária e do feminismo.