Experiências territoriais do Semiárido brasileiro são exemplos de resistência na agroecologia

Experiências territoriais do Semiárido brasileiro são exemplos de resistência na agroecologia

Há anos, o agronegócio vem tentando se instalar no lado potiguar da Chapada do Apodi a partir do projeto de perímetro irrigado. A partir da resistência das famílias e organizações sociais e sindicais que trabalham com agricultura familiar no território, o projeto não foi implementando como previsto, mas as empresas de monocultivos de frutas para exportação estão em ação através da exploração das águas subterrâneas fora da área do perímetro, através da escavação de poços profundos.

As obras que permitirão a irrigação a partir das águas da barragem de Santa Cruz estão paradas por uma determinação judicial até que o Departamento Nacional de Obras contra a Seca (DNOCS), ligado ao Ministério da Integração Social, responsável pelo projeto, refaça o relatório de impacto social e ambiental. No lado cearense da Chapada, as famílias já sofrem com o processo de desterritorialização a partir da implementação do perímetro irrigado Jaguaribe-Apodi.

Um dos encontros para organizar a resistência das famílias na Chapada do Apodi no RN | Foto: Ellen Dias

A água subterrânea usada pelo agronegócio pertence ao aquífero Jandaíra, um dos maiores mananciais de água do Rio Grande do Norte, responsável inclusive pelo abastecimento da capital. De acordo com o presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Apodi, Agnaldo Fernandes, o uso desenfreado e sem controle desse recurso pode gerar um rebaixamento do lençol freático atingindo diretamente 600 famílias assentadas que podem ficar sem água. De forma indireta, o sindicalista afirma que duas mil pessoas serão afetadas. Há também um risco alto de contaminação da água pelo uso intensivo de veneno usado nos monocultivos.

A conjuntura antidemocrática e a diminuição nos investimentos de recursos públicos em políticas voltadas para o campo, como o Pronaf e as tecnologias de captação de água de chuva têm favorecido o avanço do agronegócio no território e, consequentemente, o aumento da violência e o êxodo rural. “A sucessão rural vinha num processo que garantia os povos no campo, os filhos dos agricultores casando, constituindo família naquele território e isso gera uma demanda [por cisternas], mas se as políticas não chegam, o pessoal não tem outra oportunidade a não ser trabalhar para essas empresas como mão de obra escrava”, denuncia Fernandes.

Entre as várias formas de resistência ao projeto do DNOCS, conhecido como Projeto da Morte, as mulheres têm tido um papel fundamental. São elas que estão à frente das lutas seja através dos seus quintais produtivos e de geração de renda, seja através de ações diretas como o fechamento dos portões para que as empresas não se instalem no território; com as mobilizações no dia 8 de março e até ações no âmbito internacional como a campanha 24 horas de Ação Feminista “Somos todas Apodi”, junto à Marcha Mundial das Mulheres, em 2012.

A apicultora e assentada da reforma agrária, Francisca Eliane de Lima, mais conhecida como Neneide, vivencia cotidianamente essa luta. Militante da Marcha Mundial das Mulheres e coordenadora da Rede Xique Xique, ela explica o papel das mulheres no processo de resistência na Chapada do Apodi: “Nós, mulheres, quando chegamos no território a gente já demarca o nosso espaço que é o espaço de plantar, que é o espaço do quintal, de sobreviver daquilo ali, das relações com os vizinhos, das relações comunitárias. Como somos nós que temos a necessidade do uso das águas, de deixar o filho na escola, de necessitar dos vizinhos, dessa história das relações de troca, então somos nós que fazemos com que essas relações sejam relações de sobrevivência, de resistência, que as pessoas não reconhecem como político, mas que finda a gente fazendo. Então o nosso papel é esse de fortalecer essa história da resistência seja do social, no político e no econômico”.

Em outro território do Semiárido, na Borborema (PB), a auto-organização das mulheres também tem contribuído com as lutas e conquistas do território. Roselita Victor, do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Remígio e membro da Coordenação do Polo Sindical da Borborema, explica que as trocas de experiências foram fundamentais para reconhecer o papel das mulheres e construir novas relações sociais baseadas na igualdade de direitos.

“A agroecologia possibilitou a gente discutir umas das questões que até então era invisível e desumana, que era a situação da vida das mulheres e da juventude. Quando a gente começou a trocar experiências agroecológicas, passamos a enxergar que as mulheres eram invisíveis nos seus papéis; que a origem do patriarcado e do machismo também estavam enraizados, inclusive, em algumas experiências que são comunitárias. Então eram questões que talvez no modelo do agronegócio, que pensa apenas no capital e no lucro, essa dimensão da qualidade de vida desses sujeitos não seria um elemento forte de debate”, contextualiza Roselita.

A história da luta camponesa na Borborema tem como um dos principais símbolos Margarida Alves, que foi a primeira presidente mulher de um sindicato de trabalhadores e trabalhadoras rurais. Hoje várias mulheres comandam os sindicatos rurais e estão à frente das ações do Polo da Borborema, uma articulação de 14 sindicatos e aproximadamente 150 associações comunitárias que mobilizam mais de 5 mil famílias agricultoras em torno da agroecologia na região da Borborema, no Agreste Paraibano.

A agroecologia possibilitou a gente discutir umas das questões que até então era invisível e desumana: a violência sofrida pelas mulheres rurais | Foto: Asacom

Uma das principais conquistas do Polo da Borborema é a realização da Marcha das Mulheres pela Vida e pela Agroecologia que todos os anos debate questões do dia a dia da vida das mulheres. Já são nove edições da Marcha e todos os anos o evento têm conseguido visibilizar e denunciar um dos grandes desafios da região que é a violência contra as mulheres. Outros avanços são as políticas de acesso à água, com a instalação de mais de 12 mil cisternas de água para consumo humano e mais de três mil cisternas para produção de alimentos.

“Isso são lutas da rede de agricultores e agricultoras com outras redes como a Articulação Semiárido Paraibano e a Articulação Semiárido Brasileiro, onde o papel dos agricultores tem uma importância fundamental. Se a gente não organiza essas redes em torno de um planejamento e de troca de conhecimento, a gente não teria a força política e organizativa que precisamos para poder fortalecer esse projeto”, destaca a sindicalista.

ENA – As histórias da Chapada do Apodi (RN) e do Polo da Borborema (PB) são dois dos seis territórios agroecológicos do Semiárido Brasileiro que serão apresentados no IV Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), que acontecerá de 31 de maio a 03 de junho, em Belo Horizonte (MG). Os demais territórios são os Sertões do Pajeú (PE), do Araripe (PE), do São Francisco (BA) e também o Norte de Minas, que também terão suas histórias de construção da agroecologia contadas no site da ASA Brasil.

Durante o IV ENA, haverá apresentações e debates sobre as principais lutas e conquistas a partir da organização das redes agroecológicas nos territórios e do reforço da resistência às investidas do agronegócio e da construção de políticas públicas adequadas para a agricultura agroecológica.

Para que o IV ENA aconteça, há um processo intenso de preparação dos territórios rurais de todas regiões do país. Segundo Roselita, um dos aprendizados do processo preparatório na Paraíba foi a possibilidade de atualizar as leituras sobre o próprio território de forma coletiva, envolvendo outros atores sociais. “Como a gente constrói essa leitura coletiva com o MST [Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra], com o MPA [Movimento dos Pequenos Agricultores], como a CPT [Comissão Pastoral da Terra], com outros atores que estão no território e de entender que a nossa luta é coletiva, que a gente pode se somar nesse processo. E muito mais nessa conjuntura antidemocrática e que exige a capacidade dos movimentos de se juntarem para a gente enfrentar essa conjuntura de opressão”, disse.

No Rio Grande do Norte, Neneide destacou a importância do debate entre o campo e cidade a partir do lema do ENA: Agroecologia e democracia unindo campo e cidade. “Eu acho que a própria discussão do ERÊ [Encontro da Região Nordeste preparatória para o encontro nacional] e a discussão que a gente fez aqui no estado em torno desse tema fez a gente refletir que a agroecologia não é simplesmente uma forma de produzir diferente, mas uma forma de olhar a sociedade diferente principalmente nesse contexto de retrocessos”.

Programa Cisternas ganha prêmio como uma das políticas públicas mais relevantes no combate à desertificação

Programa Cisternas ganha prêmio como uma das políticas públicas mais relevantes no combate à desertificação

O Programa Cisternas, uma política pública de acesso à água que possibilita às famílias rurais do Semiárido brasileiro viver na região, foi considerada a segunda iniciativa mais importante do mundo no combate à desertificação. O reconhecimento vem do Prêmio Política para o Futuro 2017, o único que homenageia políticas em vez de pessoas a nível internacional. A divulgação do Prêmio Prata para a política brasileira foi anunciada hoje (22). A cerimônia de entrega da premiação será em 11 de setembro, durante a 13º Conferência das Partes da Convenção das Nações Unidas, em Ordos, na China.

O prêmio, uma iniciativa do World Future Council que, este ano, teve a parceria da Convenção das Nações Unidas para o Combate à Desertificação (UNCCD), atesta a efetividade das ações de convivência com o Semiárido como uma política pública com potencial para reverter a degradação do solo, que impossibilita a produção de alimentos, abandono das regiões afetadas pela sua população, fome e miséria. A desertificação afeta 58% da área do Semiárido, onde vivem 11,8% brasileiros e brasileiras, muitos deles em situação de pobreza ou extrema pobreza.

Característica marcante e diferenciada do Programa Cisternas é ter nascido no seio das experiências da sociedade civil, proposta como política pública de convivência com a região pelas organizações atuantes no Semiárido, através da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) e assumida pelo Estado.

Valquíria Lima, da coordenação executiva da ASA pelo estado de Minas Gerais, destaca que o Programa Cisternas é resultado de uma solução encontrada pelas próprias famílias rurais do Semiárido para terem água. Essa solução foi potencializada pelas organizações de apoio à agricultura familiar que atuam no Semiárido e formam a ASA.

“Um dos grandes méritos da sociedade civil foi construir uma organização política e administrativa para executar esta política pública, comprovando que a sociedade civil organizada além de propor, mobilizar, pode executar políticas públicas adequadas. No nosso processo metodológico, as famílias são protagonistas. Elas se envolvem no processo de mobilização da comunidade, na construção da tecnologia, nos processos formativos”, afirma Valquíria.

Para ela, a transparência e eficiência que a ASA gerenciou os recursos públicos também contribuem para que o Programa Cisternas seja referência mundial. “A ASA criou toda uma estrutura para fazer a gestão de forma muito transparente e isso também surtiu um efeito positivo. Foi através da transparência, com nosso sistema integrado de gastos, com nossas tecnologias todas georreferenciadas, que comprovamos, de fato, que os recursos chegam na base. E isso nos respaldou para executar, ao longo destes anos, um orçamento significativo para a sociedade civil de mais de R$ 2 bilhões”.

A parceria entre Estado e sociedade civil foi um dos elementos determinantes para essa avaliação da política pública brasileira, como atesta o texto de divulgação da premiação: “Graças a um movimento social, o Brasil introduziu o Programa Cisternas para apoiar a meta de instalação de um milhão de cisternas de coleta de água da chuva para uso doméstico de milhões de pessoas que residem em áreas rurais no Semiárido. O objetivo da instalação de um milhão de cisternas foi alcançado em 2014. Também há 250 mil tecnologias de água produtiva e milhares de cisternas construídas para escolas. Agora, muito menos pessoas deixam a região devido à seca e, apesar de, desde 2012, a região ter experimentado uma das piores secas já registradas, relatórios indicam que não há incidência dos piores efeitos da seca – mortalidade infantil, fome, migração em massa – que costumava ser generalizada no Semiárido”.

Vidas transformadas – No Sertão do Araripe, em Pernambuco, a história de seu Luiz Pereira Caldas, 58 anos, e a esposa Nilza de Oliveira Caldas, 60, é emblemática quanto ao movimento inverso de migração que passou a ocorrer na região depois das políticas públicas de convivência com o Semiárido. Após duas décadas em São Paulo, eles voltaram para sua cidade natal, no município de Granito. Um dos principais motivos do retorno foram as condições favoráveis à prática da agricultura trazidas com a instalação do barreiro-trincheira na propriedade de sua mãe. Este tipo de barreiro é escavado no solo para acumular, no mínimo, 500 mil litros de água da chuva. Por ser estreito e fundo, o espelho d´água em contato com a ação do vento e do sol é pequeno, o que diminui a evaporação do líquido.

Ao chegar no sítio Venceslau onde cresceu, seu Luiz e dona Nilza passaram a plantar, próximo ao barreiro, feijão, andu, maracujá, acerola, tomate, jerimum, abóbora, banana e macaxeira. Logo depois, seu Luiz aprendeu a construir cisternas em cursos oferecidos pelas organizações que fazem parte da ASA para ampliar a renda familiar. Em 2015, a família conquistou mais uma tecnologia de convivência com o Semiárido: a cisterna-calçadão, que também guarda água da chuva, geralmente, utilizada para o quintal produtivo sobretudo para aguar hortaliças, um tipo de cultivo que pede muita água e precisa ser protegida do sol forte.

Com a água e manejo adequado do solo, as famílias agricultoras plantam de tudo, inclusive, produzem mudas de plantas nativas para preservação da Caatinga e do Cerrado, biomas que ocorrem na região semiárida, e que estão bastante degradados pelas ações do homem para criação de gado, expansão de monocultivos e extração de madeira.

“Quando comprei esse pedaço de terra não tinha nenhuma árvore plantada. Nem uma vara pra fazer um espeto pra assar um pedaço de carne, então eu plantei umburana, sabiá, catingueira, craibera e outras árvores. No meio delas planto palma e hoje coloco minhas colmeias”, conta o agricultor Francisco de Assis da Silva, popular Preguinho, da comunidade São Luiz, do município de Maravilha, em Alagoas. Ele tem alcançado bons resultados ao trabalhar com a agroecologia, como a reversão da infertilidade do solo. Essa prática tem contribuído para produção mesmo em épocas de estiagem.

O agricultor pratica técnicas de uso sustentável do solo como cobertura morta, defensivos naturais, período de pousio, rotação de culturas, diversidade produtiva entre outras. “Se eu usasse veneno contaminava a terra, os alimentos, minha saúde e as abelhas não iriam produzir mel de qualidade”. Além do cultivo de espécies nativas, forragem e hortaliças, Seu Francisco também cria aves, ovinos e desenvolve a atividade de apicultura.

Desertificação – Segundo a UNCCD, as terras secas cobrem 40% da superfície da Terra, onde ocorrem os climas árido, semiárido e subúmido seco da Terra. Evidências do processo de desertificação estão presentes em quase todas as partes do Semiárido e, em alguns locais, são tão marcantes que foram rotuladas de núcleos de desertificação: Seridó (RN/ PB), Cariris Velhos (PB), Inhamuns (CE), Gilbués (PI), Sertão Central (PE), Sertão do São Francisco (BA).

Saiba mais sobre as outras políticas vencedoras aqui.

Com a regularidade das chuvas no Semiárido, as feiras agroecológicas retomam sua força

Com a regularidade das chuvas no Semiárido, as feiras agroecológicas retomam sua força

No Semiárido, não é só a Caatinga que se torna verde com as primeiras chuvas após um período de estiagem. As feiras agroecológicas também retomam sua força, tanto no aumento de famílias produtoras, como na variedade de alimentos comercializados. Esse fenômeno pode ser percebido em toda região que passou por uma seca de sete anos – de 2010 a 2017 – e foi considerada uma das mais severas dos últimos 30.

Mas tal feito não aconteceria só com a volta das chuvas se políticas públicas adequadas à convivência com o Semiárido não tivessem sido construídas com influência da sociedade civil organizada e chegado às famílias agricultoras na última década. Entre estas políticas públicas, uma que traz impacto direto no aumento da produção dos feirantes é a que permite o estoque de água da chuva em maior quantidade para aguar os quintais produtivos e oferecer aos animais de pequeno e médio porte e a assistência técnica agroecológica.

No Rio Grande do Norte, as cidades de Umarizal e Caraúbas têm uma feira agroecológica cada. A de Umarizal ficou desativada de 2011 a 2016 e, a partir do ano passado, 10 das 20 famílias que participavam da feira voltaram a vender os alimentos que produzem nas suas propriedades. Segundo Risoneide Lima, assessora político-pedagógica da ONG Diaconia, no Oeste Potiguar, essa reativação aconteceu devido à “chuvada de 2017 e também porque a maioria das famílias conseguiu a cisterna-calçadão”.

Esta tecnologia é disseminada na região pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA) com recursos públicos e ação ativa das organizações que fazem parte da rede. Pelo Programa Uma Terra e Duas Águas, a ASA implementou mais de 95,6 mil tecnologias que acumulam a chuva para produzir alimentos e criar animais. Deste total, quase 51,3 mil são as cisternas-calçadão.

A agricultora e vice-presidente da Associação Oeste Verde, Maria Elizabete de Oliveira, 53 anos, é uma das participantes da feira agroecológica de Umarizal e uma das quais passou a ter a cisterna-calçadão. Ele e seu marido conseguem uma boa produção para vender na feira toda segunda-feira: mamão, pinha, cheiro verde, cebolinha, couve manteiga, jerimum caboclo, berinjela e queijo coalho que ela mesma produz a partir do leite das suas duas vacas. Dona Beta, como é chamada, fez questão de citar outros alimentos plantados na horta para serem oferecidos em breve a seus clientes: cenoura, tomate cereja, alface, beterraba e a batata-doce.

Com tanta variedade, dona Beta consegue um apurado de R$ 80 por semana ou R$ 320,00 num mês. “Esse dinheiro ajuda demais. Serve para pagar energia, uma conta, a gasolina. E além disso, a gente não precisa comprar o feijão, a batata e as hortaliças”. Só a renda da feira equivale a mais que o dobro do valor que ela e o marido tinham nos meses de maior aperto da seca.

Na época, eles passavam o mês basicamente com os R$ 132,00 do Bolsa-Família e mais uns R$ 48,00 da venda semanal do leite produzido por uma vaca que conseguiram manter, um total de 180,00. Um valor que colocava a família em situação de extremamente pobres, segundo critérios do Governo Federal. Com a volta da venda direta aos consumidores, somado ao benefício do Bolsa-Família e outras fontes sazonais, a família supera a chamada linha de pobreza.

Em Pernambuco, as feiras agroecológicas apresentam trajetória semelhante. No Sertão do Pajeú, o município de Serra Talhada sedia a feira mais antiga do Sertão pernambucano, que leva o nome da cidade e completa 18 anos no início do mês que vem. Nestes anos de chuvas bem abaixo da média, o número de feirantes passou de 25 para 10 a 12. “Atualmente, as famílias afastadas estão voltando. Uma esteve longe por seis anos e algumas outras, de um a dois anos. Agora a feira está com 22 produtores antigos”, conta Maria Silvolusia Mendes, coordenadora-presidente da Associação dos Agricultores da Feira Agroecológica de Serra Telhada (Afast).

Pesquisa – Há um estudo publicado em 2015 que traça o perfil de famílias agricultoras que participam de feiras orgânicas e agroecológicas no Recife, capital pernambucana, e em toda a Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte. Intitulada “Feiras Agroecológicas – Institucionalidade, Organização e Importância para a composição da renda do agricultor familiar”, a pesquisa assinada pela Universidade Federal de Pernambuco e ao Instituto de Desenvolvimento do Trabalho, sediado no Ceará, está disponível para download.

Nela, há dados sobre a renda das famílias que participam da feira e comparam estes dados com a renda rural e a geral do município onde o/a agricultor/a mora. Também apresenta dados sobre o sexo, escolaridade, área da propriedade e da produção orgânica das famílias que estão nas feiras. A pesquisa também levanta as feiras e a quais organizações de referência (ONGs, entre outras) elas estão ligadas.

Durante a coleta de dados, em 2013, no Rio Grande do Norte estavam em funcionamento nove feiras, incluindo a de Caraúbas. Vale lembrar que esse período a região estava bem seca. A de Umarizal já estava desativada. Os dados sobre a renda dos feirantes apontam que na de Caraúbas a renda conseguida por mês pelos feirantes superava a renda média per capita rural do município (IBGE/2010). Respectivamente, R$ 254,23 e R$ 227,05. Dos quatro produtores ligados a esta feira no período, duas eram mulheres, a média de idade era 37 anos e três liam e escreviam.

Hoje, são seis feirantes agroecológicos que vendem seus produtos variados na feira de Caraúbas. A Diaconia, que faz parte da ASA Brasil, acompanha a produção das famílias agricultoras com assistência técnica agroecológica. Uma ação mantida, em grande parte, por recursos vindos de agência de cooperação internacional como a alemã Pão para o Mundo e a inglesa Tearfund.

Ater Agreocologia – Uma das principais estratégias de acesso a mercado da agroecologia é a criação de feiras para venda direta aos consumidores. Estes espaços se firmam como práticas de comércio justo tanto para remunerar os produtores, quanto para os consumidores que acessam produtos limpos a preços acessíveis. Confira pesquisa feita pelo Centro Sabiá que compara os valores de cestas de alimentos vendidos nas feiras agroecológicas do Recife com o preço dos produtos cultivados com uso de agrotóxicos e vendidos em feiras públicas de bairros populares e em supermercados.

Para ter feiras é preciso ter excedente na produção das famílias e um caminho que facilita isso é a assistência técnica baseada nos princípios agroecológicos. Como política pública, essa ATER começou a ser oferecida há três anos apenas para famílias agricultoras de todo o Brasil através da Política Nacional de Assistência Técnica e Extensão Rural (Pnater).

De acordo com Cristina Nascimento, da organização Cetra e do Fórum Cearense pela Vida no Semiárido, que representa a ASA Brasil no estado, o que se percebe é uma grande incidência dos/as agricultores/as assessorados pela Ater Agroecologia na Rede de Feiras Agroecológicas acompanhada pela sua organização. Até porque as famílias selecionadas para receber a assistência eram as que já tinham sido contempladas com as tecnologias de água para produção.

“Esta política passa por uma fase muito difícil. O Governo do Brasil deve cerca de R$ 60 milhões para as organizações contratadas para executar a Ater Agroecologia. O último pagamento feito este ano foi relativo a gastos executados em setembro de 2017. O Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea) e a Comissão Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica (Cnapo) estão tentando articular uma audiência com o Governo Federal”, conta Cristina.

Algumas instituições do Nordeste que executam o Ater Agroecologia e fazem parte da ASA estão articuladas na Rede Ater Nordeste: Cetra (CE), Esplar (CE), Centro Sabiá (PE), Patac (PB), AS-PTA (PB) e Sasop (BA)

IV Encontro Nacional de Agroecologia ilumina focos de resistência ao agronegócio

IV Encontro Nacional de Agroecologia ilumina focos de resistência ao agronegócio

Enquanto o Brasil vive a discussão sobre o Pacote do Veneno, um Projeto de Lei que retira todos os controles legais que impedem o uso desenfreado de agrotóxicos nas lavouras e é, pelo 8º ano consecutivo, o maior consumidor de veneno no mundo, cerca de duas mil pessoas – vindas de Norte a Sul do país – se encontram em Belo Horizonte/MG para resistir ao agronegócio. Elas vêm anunciar que existe outro modelo de desenvolvimento, posto em prática por elas mesmas, e que conjuga sustentabilidade com geração de riquezas e justiça social. De 31 de maio e 3 de junho, a capital mineira sedia o IV Encontro Nacional de Agroecologia (IV ENA), no Parque Municipal Américo Renné Giannetti.

Das duas mil pessoas, metade são mulheres, que despontam como sujeitos políticos com grande capacidade de auto-organização e de resistência ao avanço do agronegócio. O ENA, aliás, é um espaço de convergência entre vários sujeitos políticos invisibilizados – povos indígenas, comunidades tradicionais, agricultores e agricultoras familiares – que vão trocar experiências agroecológicas, discutir os efeitos das políticas públicas para a agricultura familiar e dar visibilidade à agenda política do movimento.

Com o lema “Agreocologia e democracia unindo campo e cidade”, o IV ENA apresenta para a população urbana os múltiplos benefícios da agroecologia como a produção de alimentos saudáveis; a recuperação e conservação das fontes de água, da biodiversidade, das florestas e dos solos; a geração de renda na agricultura e a valorização das identidades e culturas dos povos e comunidades do campo. Esses benefícios respondem a um sem número de desafios vivenciados no Brasil, como a alta concentração de agrotóxicos nos alimentos, desmatamento, mortes de rios, concentração de renda, êxodo rural, aumento da pobreza, entre outros.

Ao reunir em um único local as mais variadas experiências agroecológicas, o IV ENA dá visibilidade a um movimento que, apesar do seu tamanho e importância no Brasil, na América Latina e no mundo, é pouco conhecido pela sociedade. “Este é um processo pouco visível porque são experiências localizadas e diversificadas entre si. Existe uma certa dificuldade em entender que práticas tão diferentes podem fazer parte de um mesmo tipo de ideia”, argumenta o Paulo Petersen, membro do comitê executivo do IV ENA, coordenador executivo da Assessoria e Serviços a Projetos em Agricultura Alternativa (AS-PTA) e vice-presidente da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA).

Para Paulo, essa é uma chance de desmentir informações amplamente difundidas na sociedade. “Uma das principais narrativas do que a gente chama de falsa verdade é a que o agrotóxico é um mal necessário. Essas são afirmações que confundem o debate público. A agroecologia demonstra que isto não é verdade e que é possível produzir em qualidade, diversidade e quantidade sem uso de veneno. O agrotóxico é um elo de uma cadeia de alimentos que precisa ser rompido, mas as políticas públicas continuam induzindo para o fortalecimento desse modelo”, afirma.  

O desafio é apresentar à sociedade ‘por que interessa apoiar a agroecologia?’, apontando a viabilidade de fornecer comida sem veneno a preço acessível e trazer impactos positivos ao ecossistema e à saúde das pessoas.

Um exemplo é o de Paula Silva Ferreira, do território de Irecê, na Bahia, e representante da Rede de Agroecologia dos Povos da Mata – há 25 anos sua comunidade produz alimentos agroecológicos. “Venho de uma comunidade [Lagoa Funda/município Barro Alto] que resiste a esse sistema e mostra que é possível produzir alimentos orgânicos. Conseguimos a certificação participativa nessa resistência. Produzimos todo tipo de verduras, hortaliças, legumes numa escala de toneladas. Saímos da perspectiva do quintal para 10 a 15 toneladas de produtos orgânicos de 28 produtores”, relata.

A programação do IV ENA inclui Feira de Saberes e Sabores, alimentação agroecológica, oficinas, atividades culturais, atos e debates públicos sobre temas como água, mudanças climáticas, sementes crioulas, biodiversidade, juventude, mulheres, entre outros.

Plenárias

Com o objetivo de aprofundar reflexões e pactuar ações do movimento agroecológicos as plenárias serão a fonte de produção de conhecimento e troca de saberes do Encontro.

Entre os temas a serem debatidos durante o ENA estão:

  •      Terra e território: povos indígenas, povos e comunidades tradicionais, reforma agrária – conflitos e resistências;
  •      Construção social de mercados; vigilância sanitária e certificação;
  •      Construção do conhecimento, comunicação e cultura;
  •      Água: conservação e democratização do acesso e gestão;
  •      Mulheres, feminismo e economia feminista e combate à violência;
  •      Soberania alimentar e segurança alimentar e nutricional, culturas alimentares e nutrição; Agriculturas urbanas e direito à cidade;
  •      Mudanças climáticas e agroecologia;
  •      Sementes, sociobiodiversidade e plantas medicinais;
  •      Construção do conhecimento agroecológico e educação do campo;
  •      Agrotóxicos e transgênicos x alimentação saudável e questão da saúde;
  •      Juventudes

Feira Saberes e Sabores

A Feira de Saberes e Sabores será um importante espaço de diálogo entre produtores e consumidores. Estarão expostos alimentos “in natura” e processados, artesanatos, tecnologias agroecológicas, produtos regionais e típicos de comunidades tradicionais, como indígenas, quilombolas e ribeirinhos.

Ao todo, serão cem barracas distribuídas pelo Parque Municipal. Dez delas funcionarão durante os quatro dias de evento, nos entornos da tenda principal, fornecendo alimentação aos participantes. As outras 90 irão operar nos dias 2 e 3 de junho, espalhadas pelo parque e abertas ao público em geral. Cada Estado brasileiro será representado por duas barracas, com exceção do Acre e do Mato Grosso do Sul, que terão uma cada. Além disso, as regiões de Minas Gerais e as organizações de referência de Belo Horizonte também terão duas barracas cada para exposição de mercadorias.

Ato Público e Alimentação agroecológica

O encerramento do Encontro, no domingo, 3 de junho, será marcado pela mobilização de um Ato Público. Marcado para às 8h, na Praça da Liberdade, o Ato culminará em um banquete 100% agroecológico no Parque Municipal.

Moção de apoio aos trabalhadores e trabalhadoras da Educação de Minas Gerais

Moção de apoio aos trabalhadores e trabalhadoras da Educação de Minas Gerais

Participante do II Encontro Mineiro de Agroecologia, realizado em Mario Campo/MG, dias 27 e 28 de fevereiro de 2018,  divulgam “Moção de apoio ao movimento grevista dos trabalhadores e trabalhadoras da Educação de Minas Gerais”. os trabalhadores e as trabalhadoras da Educação reivindicam o cumprimento do acordo feito com governo estadual relacionado ao ajuste do piso salarial, o pagamento do  13º sem parcelamento e contra o projeto que trás as parcerias público privadas para a educação estadual.

Lei a moção na íntegra