III ENA debate o panorama da agroecologia no mundo

III ENA debate o panorama da agroecologia no mundo

internacional enaA crescente influência da agroecologia na agenda política internacional foi debatida em painel realizado no dia 18 de maio, como parte da programação do III Encontro Nacional de Agroecologia (III ENA). A atividade se iniciou com a apresentação de uma saudação enviada em vídeo por Olivier De Schutter, ex-relator especial da ONU pelo direito humano à alimentação.

Sintonizado com o III ENA, De Schutter afirma que já passamos do momento de nos perguntarmos se a agroecologia é ou não uma opção para o futuro da agricultura e da alimentação. Para ele, frente ao aprofundamento da crise alimentar, essa pergunta já não faz sentido. As questões a serem respondidas são “quando” e “como” a comunidade internacional vai promover a agroecologia como alternativa aos padrões dominantes de produção e consumo alimentar. Em sua opinião, “não podemos deixar que a crise fique ainda pior. Precisamos preparar uma transição, mas a hora de agir é agora”.

Após a exibição do vídeo, representantes de organizações da sociedade civil da América Latina, da África e da Europa presentes ao III ENA teceram comentários sobre os desafios de promoção da agroecologia em seus países e regiões. O painel contou também com intervenção de representante do governo federal, membro do Comitê Brasileiro do Ano Internacional da Agricultura Familiar, Camponesa e Indígena.

A agroecologia no Ano Internacional da Agricultura Familiar

Segundo Paulo Petersen, diretor-executivo da AS-PTA e coordenador do painel, o crescente reconhecimento internacional da agroecologia é uma resposta à tomada de consciência sobre a insustentabilidade dos padrões dominantes de organização dos sistemas agroalimentares e seus efeitos na acentuação das crises alimentar, ambiental, energética, social e econômica que se abatem sobre o planeta. Para ele, a perspectiva agroecológica está sendo crescentemente reconhecida como a única alternativa capaz de equacionar e dar respostas consistentes às múltiplas dimensões da crise sistêmica global que coloca em risco os fundamentos das sociedades contemporâneas.

“No Ano Internacional da Agricultura Familiar, o III ENA não poderia deixar de enviar sua mensagem ao exterior. Por isso, organizamos esse painel”, destacou Petersen. “Temos que celebrar o Ano Internacional da Agricultura Familiar. Afinal a decisão da ONU de dar visibilidade à agricultura familiar foi uma conquista nossa, da sociedade civil. Mas, ao fazermos essa celebração, temos também que apontar as razões pelas quais esperamos que a agricultura familiar seja reconhecida e os caminhos pelos quais esperamos que ela seja promovida e desenvolvida. Já são vários os países que, como o Brasil, instituíram políticas específicas para a agricultura familiar. Mas a experiência brasileira nesse campo já demonstrou que não basta que o Estado apoie genericamente a agricultura familiar. Se as políticas públicas nessa área forem desenhadas pelo viés produtivista que caracteriza a modernização agrícola, elas acabam induzindo a crescente dependência da agricultura familiar às grandes cadeias agroindustriais e ao mercado financeiro. Dessa forma, ela vai se convertendo em um elo subordinado ao agronegócio”.

Para o coordenador do painel, esse é o sentido da pergunta que pauta o III ENA: “Porque interessa a sociedade apoiar a agroecologia?”. “Com base nas experiências sistematizadas em todas as regiões do paísna preparação do nosso encontro, viemos aqui para demonstrar que a agroecologia é o único enfoque para o desenvolvimento da agricultura familiar capaz de dar respostas consistentes a essa crise que coloca a humanidade em uma verdadeira encruzilhada histórica”.

Vozes da América Latina, África e Europa

Assim como Olivier De Shutter, os convidados internacionais presentes ao painel internacional no III ENA manifestaram a importância do movimento brasileiro pela construção da agroecologia, destacando os vínculos dessa construção com os movimentos sociais que lutam pela defesa e o fortalecimento da agricultura familiar e dos povos e das comunidades tradicionais como a base sociocultural da agricultura do futuro.

Para o colombiano German Alonso Vélez, membro da RedSemillas, temos no Brasil uma condição que não se vê em seu país. “Aqui o governo brasileiro reconhece e apoia agendas de luta do movimento agroecológico. Na Colômbia, muitas famílias camponesas estão perseguidas porque guardam sementes crioulas. Isso começa a ser considerado um crime. Tratados como o Livre Comércio e a dinâmica de globalização estão acabando com a agricultura familiar”, disse. Para ele, “todos na América Latina olhamos com muita atenção para os ensinamentos do movimento agroecológico no Brasil”.

Para Karen Read, da Biowatch South Africa, muitos anos de colonização e influência de culturas de fora marcam a agricultura de seu país, a África do Sul, onde os movimentos sociais também estão lutando pela criação de uma política nacional voltada à agroecologia. “Mas ainda estamos no rascunho da proposta e nada foi oficializado ainda”. Read diz que levará para a África do Sul a mensagem das mulheres do III ENA quando afirmam que “Sem feminismo, não há agroecologia”. “Um novo paradigma na agricultura precisa passar pelo empoderamento das mulheres. Afinal, são elas que protegem as sementes e a biodiversidade”, afirmou.

Complementando a análise a partir da realidade da África do Sul, Zayaan Kahan, da organização Surplus People Project, afirma que ao apoiar o agronegócio, o governo sul-africano marginaliza a maioria da população. “O agronegócio acessa água por um preço muito baixo, enquanto o povo passa sede. Toda a alimentação a base de milho e de soja está contaminada com transgênicos. Também para nós o acesso a terra é o principal problema. Temos fortes afinidades que unem e fortalecem nossas lutas”.

Edith van Walsum, diretora da ONG holandesa Ileia, lembrou que seu país é o 2º maior importador de soja do Brasil. “A China, um país 100 vezes maior que a Holanda, é o único importador de soja a nossa frente”. Frente a essa realidade, ela colocou a questão: “O que fazemos com tanta soja num país tão pequeno?”. E respondeu:“Produzimos leite de gado e carne de porco e nos tornamos o maior exportador de produtos lácteos do mundo”. “Isso não é sustentável”, concluiu. Com esse raciocínio, van Walsum justificou a necessidade de um movimento agroecológico de escala planetária capaz de transformar radicalmente a ordem dominante nos sistemas agroalimentares modernos que concebem o alimento como outra mercadoria qualquer a ser transacionada nos mercados globalizados.

Para ela, “um movimento global como esse dependerá do fortalecimento de movimentos nacionais e locais como o que vocês têm aqui no Brasil. É necessário estar ‘globalmente conectados, localmente enraizados’ como diz o lema da Rede AgriCulturas, composta por organizações do campo agroecológico de países da Europa, África, Ásia e América Latina. Aqui, a AS-PTA é a organização que apoia a conexão entre o movimento agroecológico brasileiro e a Rede AgiCulturas. Com base nessa conexão, divulgamos experiências brasileiras em revistas publicadas em inglês, espanhol, francês, chinês e em línguas locais da Índia para um público de mais de um milhão de pessoas de 150 países. Olhamos para a agroecologia no Brasil como uma fonte de inspiração. Esse encontro é um exemplo da força desse movimento construído de baixo para cima”.

A referência brasileira

Em sua saudação ao III ENA, Olivier de Shutter ressaltou o importante papel que o Brasil tem a desempenhar no cenário internacional no campo da institucionalização da agroecologia. Para ele, o debate que a comunidade internacional tem feito para a definição dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável que serão adotados a partir de setembro de 2015 em substituição aos Objetivos do Milênio é uma oportunidade única para a inserção da agroecologia na agenda política dos países. Cada país deve instituir um Plano de Ação que terá sua execução monitorada com a participação da sociedade civil.

Ao encerrar o painel, Onaur Ruano, diretor do departamento de geração de renda e agregação de valor do Ministério do Desenvolvimento Agrário concordou com a importância da mobilização da sociedade civil para que mudanças nesse sentido aconteçam. Lembrou que tanto a instituição do Ano Internacional da Agricultura Familiar, pela ONU, quanto da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica, pelo governo brasileiro, são expressões da pressão das organizações da sociedade. O Plano Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica é um caminho importante para a internalização da agroecologia nas políticas públicas. Mas o avanço na direção das propostas que estão sendo debatidas no III ENA dependerão da contínua articulação de movimentos sociais dentro e fora do Brasil.

Veja a Carta política do III ENA.

Mato Grosso presente no III Encontro Nacional de Agroecologia

Mato Grosso presente no III Encontro Nacional de Agroecologia

caravana mato grossoPor Maíra Ribeiro/Comunicação AXA*

De 16 a 19 de maio de 2014, mais de duas mil pessoas se reuniram em
Juazeiro da Bahia para discutir “porque interessa à sociedade apoiar a
agroecologia?” Esse foi o tema do III Encontro Nacional de Agroecologia
(ENA), organizado pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA). A ANA reúne movimentos, redes e organizações do país engajados em experiências concretas de promoção e fortalecimento da agroecologia e de alternativas sustentáveis de desenvolvimento rural. A agroecologia aqui é entendida não
somente como uma forma de produzir alimentos – que lança mão dos processos
ecológicos, valorizando a sociobiodiversidade e sem uso de agrotóxicos –
mas como base para relações sociais e com a natureza que superam a produção
de mercadorias que caracteriza a agricultura hegemônica atual.

Mato Grosso participou com 40 pessoas de diferentes regiões do estado.
Estas pessoas pertencem a associações e grupos de base, movimentos sociais
e entidades sociais de assessoria do estado (veja o quadro ao fim do
texto). O Grupo de Comunicação da Articulação Xingu Araguaia (AXA)
conversou com Cidinha Moura, da FASE/MT, que integrou a delegação
mato-grossense, sobre a participação do estado no Encontro Nacional de
Agroecologia.

O Encontro que começou muito antes

Uma característica deste encontro é que ele é feito por quem de fato
pratica e constrói a agroecologia em nosso pais, de forma que todos os
participantes deveriam integrar as delegações estaduais e estar diretamente
envolvidos em experiências agroecológicas, com participação de 70% de
agricultores e agricultoras. Ao longo de um ano e meio foram realizadas
várias atividades preparatórias para o ENA, como encontros estaduais e
caravanas territoriais. Além das trocas de experiências e discussões
preparatórias para o encontro, as caravanas permitiram construir um
panorama de conflitos e disputas vividas nos territórios para compor um
quadro abrangente durante o Encontro Nacional de Agroecologia.

caravana mato grosso“A realização da Caravana no sudoeste de Mato Grosso foi fundamental para o processo preparatório ao III ENA” lembra Cidinha. A Caravana Agroecológica e Cultural de Mato Grosso aconteceu em Cáceres entre 30 de outubro e 1º de novembro de 2013, organizada por movimentos e organizações integrantes do GIAS e contou com cerca de 150 participantes. Cidinha explica que “durante a caravana, fizemos a discussão da conjuntura atual de Mato Grosso enfatizando as ofensivas do agronegócio, mas também visitamos experiências agroecológicas como a ARPA, ARPEP, Associação Flor do Ipê, como formas de resistência ao agronegócio”. Durante o III ENA, o GIAS apresentou o que foi a Caravana Agroecológica e Cultural de Mato Grosso através da instalação pedagógica e assim, pode dialogar com pessoas de outras regiões do Brasil.

Palestras, experiências e mobilização

A estrutura e metodologia do encontro foram pensadas de modo a contemplar a
discussão das ameaças e as experiências nos diferentes territórios. Assim,
ocorreram oficinas temáticas autogestionadas e seminários, que abrangiam
temas como reforma agrária, conflitos e reconhecimento dos territórios dos
povos tradicionais, normas sanitárias e o PLANAPO (Plano Nacional de
Agroecologia e Produção Orgânica). O PLANAPO foi construído pelo governo
federal com participação da sociedade civil lançado no fim de 2013 visando
ampliar e efetivar ações para orientar o desenvolvimento rural sustentável.

Ato de encerramento do III ENA

Além das mesas redondas e palestras, o III ENA foi marcado por
manifestações e atos em locais públicos. “Não podíamos deixar de manifestar
as ameaças sofridas, mas também anunciar a agroecologia como modo de vida”
diz Cidinha. O grande ato de encerramento em defesa da agroecologia e
contra o agronegócio fechou a ponte entre Petrolina e Juazeiro sobre o Rio
São Francisco no último dia do ENA. Além deste, algumas das manifestações
ocorridas durante o encontro foram o ato contra a Monsanto, a manifestação
denunciando o risco do mosquito da dengue transgênico e a ocupação do
escritório da EMBRAPA em Petrolina pelas mulheres.

ato encerramentoA participação das mulheres inclusive foi marcante no III ENA. As
delegações estaduais deveriam ter paridade de participantes homens e
mulheres, o que fez com que o encontro tivesse metade de participantes
mulheres. No segundo dia do ENA, houve Plenária das Mulheres para discutir
a superação do machismo dentro das relações sociais, seja familiares, seja
frente a políticas públicas. “A Plenária foi muito animada, com importantes
proposições e depoimentos de mulheres de todo o Brasil. A Plenária foi
encerrada com grande ciranda sob o grito de ordem e lema das mulheres no
III ENA: sem feminismo não há agroecologia!” conta Cidinha.

Caminhada que segue

O encerramento do ENA se deu com a entrega da Carta Política do encontro ao
ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência da
República, que se comprometeu a entregar à presidente Dilma. O documento
foi fruto dos relatórios e discussões das atividades programadas,
refletindo as discussões dos mais de 2 mil participantes. Ali estão
presentes respostas às crises atuais enfrentadas pela sociedade, apontando
a agroecologia como opção estratégica na perspectiva de um modelo com
alimentação saudável, saúde coletiva, preservação do meio ambiente,
trabalho com distribuição de renda e oportunidade aos jovens, dentre outros
elementos.

“É de fato um enorme avanço e um sonho de sociedade que queremos e
desejamos” disse o ministro Gilberto Carvalho ao receber a carta dos
movimentos, afirmando que o Estado tem a responsabilidade de dar respostas
efetivas às questões cobradas. No entanto, reconheceu que sem uma reforma
política essa carta não se tornará realidade. “Não há correlação de forças
hoje para que essa carta se torne realidade. As questões estruturais,
enquanto houver a bancada dos latifundiários como maioria no Congresso
Nacional, não conseguiremos avançar como precisamos. Precisamos garantir um
Congresso que de fato represente a maioria dos brasileiros e não a minoria
do poder econômico” ressaltou.

Diante deste enorme desafio da conjuntura atual, o III ENA serviu de guia
também para as ações e articulações futuras. Em Mato Grosso, Cidinha Moura
as elenca: fortalecer o GIAS enquanto articulação estadual de agroecologia;
dar continuidade às caravanas agroecológicas e culturais no estado; e
participar das sub-comissões do PLANAPO a nível nacional.

Leia a Carta Política do III ENA

Algumas das organizações de Mato Grosso que foram ao III ENA:

– Associação Mutuca do Quilombo Mata Cavalo- Nsa. Sra. do Livramento
– Associação Regional de Produtores Agroecológicos (ARPA) – Mirassol d’Oeste
– Associação Regional de Produtores Extrativistas do Pantanal (ARPEP) –
Cáceres
– Associação Rural Juinense Organizada para Ajuda Mútua (AJOPAM) – Juína
– Centro de Tecnologias Alternativas (CTA)
– Comissão Pastoral da Terra (CPT)
– Federação de Órgãos para Assistência Social e Educação (FASE)
– Grupo de Intercâmbio em Agricultura Sustentável de Mato Grosso (GIAS)
– Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB)
– Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA)
– Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)
– Associações indígenas entre outros

Imagens: Cidirlene Cunha/Faceboook (superior e ato) e Articulação Nacional
de Agroecologia (caravana).

(*) Matéria publicada originalmente na Articulação Xingu Araguaia (AXA).

Comunicando um Brasil agroecológico

Comunicando um Brasil agroecológico

Sem Comunicação Popular, Não há Agroecologia.  Equipe de Comunicação do III ENA. Foto: Fábio Caffe / Imagens do Povo

Sem Comunicação Popular, Não há Agroecologia. Equipe de Comunicação do III ENA. Foto: Fábio Caffe / Imagens do Povo

O III Encontro Nacional de Agroecologia (III ENA) contou com uma cobertura coletiva feita por comunicadores de diversos movimentos sociais e organizações que acompanham a Articulação Nacional de Agroecologia (ANA). Assim como outros temas, o encontro pautou a comunicação, vista com grande potencial para fortalecer o movimento agroecológico. “A comunicação é um direito fundamental que deve ser defendido para a efetivação da democracia em nosso país e para a consolidação da agroecologia como único modelo viável e sustentável para a agricultura brasileira”, destacou trecho da Carta Política.

O documento ressaltou ainda que é preciso “enfrentar o perverso sistema de comunicação dominante”, que legitima padrões de desenvolvimento geradores de desigualdades sociais, da concentração de riquezas e da destruição ambiental. Realizado no município baiano de Juazeiro entre 16 a 19 de maio, o III ENA destacou que o diálogo entre agroecologia e a comunicação fortalece a produção de conhecimento, o intercâmbio de experiências e a valorização de saberes locais, envolvendo diferentes territórios em um propósito comum.

O trabalho coletivo de comunicadoras e comunicadoras durante o III ENA resultou em textos para sites, impressos e redes sociais, fotos e vídeos. Também contou com uma Rádio Poste, que funcionou no intervalo das atividades do evento. Mais do que uma ferramenta, a emissora ampliou a participação. Filas se formaram para informes, depoimentos, cantorias e declamação de cordéis.

Abaixo estão entrevistas em áudio que traduzem nas vozes de agricultoras e agricultores temas relacionados ao lema “Cuidar da terra, alimentar a saúde e cultivar o futuro”.

Sementes tradicionais, agrobiodiversidade e acesso à terra
Luiz Pereira, de 70 anos, é militante do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). Ele é da região de Araripe, Pernambuco. Nesta entrevista, o agricultor fala que “a vida está no quintal de casa”, valorizando os conhecimentos tradicionais. Também aborda o pilar “semente e água”, mas sem deixar de ressaltar que “a palavra mais linda que existe é ‘terra'”. Dessa maneira ele chama atenção para a importância da reforma agrária. Ouça a entrevista.

História de luta popular na voz de uma descendente de quilombolas
“Sem feminismo não há agroecologia” foi uma das principais mensagens do III ENA. Nesta entrevista, Josefa dos Santo Jesus, de 56 anos, fala sobre “sua criatividade em organizar a população” em torno de uma associação a fim de lutar por melhores condições de vida. Ela é descendente de quilombolas de Sítio Alto, no município de Simão Dias, em Sergipe, território onde hoje se constrói a agroecologia. Histórias como a dela deixam evidente a importância das mulheres na produção de alimentos saudáveis. Ouça a entrevista.

Conhecimentos tradicionais e a convivência no semiárido
O cearense Paulo Maciel, de 53 anos, resolveu ir aos espaços de debates dos jovens durante o III ENA por se preocupar com o fato de os conhecimentos sobre sementes e ervas medicinal estarem, muitas vezes, morrendo junto com “os mestres”. “São espécies que tiveram seu valor comprovado por todas as gerações anteriores”, pontuou o agricultor do Fórum Araripense de Convivência com o Semiárido. Ouça a entrevista.

Agroecologia na cidade na visão de uma jovem
A gaúcha Luiza Bassanesi, de 20 anos, faz parte da Rede de Grupos de Agroecologia (Rega) e se anima com cultivos feitos em espaços públicos da cidade ou até mesmo dentro de casa, em pequenos vasos de planta. A jovem aponta que essa é uma forma de colocar em prática a “filosofia agroecológica”, que conheceu na faculdade. Além disso, contou que tem aprendeu muito com os jovens rurais durante o III Ena. Ouça a entrevista.

A vida de uma quebradeira de coco no Maranhão
Betsaida de Souza é quebradeira de coco de Mearim, no Maranhão. Ela falou da importância de valorizar sua identidade, revelando uma realidade de preconceitos em sua região. “Muitas mulheres ainda têm vergonha, se escondem para quebrar coco”, relata. A integrante da Associação em Áreas de Assentamento no Estado do Maranhão (Assema) também comentou as imposições do agronegócio e destacou que “o país não possui uma política de juventude no campo”. Ouça a entrevista.

(*) Matéria publicada originalmente no site da Fase – Solidariedade e Educação.

Carta Política do III ENA

Carta Política do III ENA

“Cuidar da Terra, Alimentar a Saúde e Cultivar o Futuro”. Com este lema, o III Encontro Nacional de Agroecologia (ENA) reuniu-se entre os dias 16 e 19 de maio de 2014 na cidade de Juazeiro-BA. Com o público de mais de 2.100 pessoas vindas de todos os estados brasileiros, fizeram-se representar trabalhadores e trabalhadoras do campo, portadores de diferentes identidades socioculturais (agricultores familiares, camponeses, extrativistas, indígenas, quilombolas, pescadores artesanais, ribeirinhos, faxinalenses, agricultores urbanos, geraizeiros, sertanejos, vazanteiros, quebradeiras de côco, catingueiros, criadores de fundos em pasto, seringueiros) , técnicos, pesquisadores, professores, extensionistas e estudantes, além de gestores convidados. Com a presença majoritária de trabalhadores e trabalhadoras rurais, nosso encontro alcançou participação paritária entre homens e mulheres, contando também com expressiva participação das juventudes.

A fase preparatória com as 14 Caravanas Agroecológicas e Culturais e o III ENA produziram claras evidências da abrangência nacional que assume hoje a agroecologia em todos os biomas brasileiros como referência para a construção de caminhos alternativos aos padrões atualmente dominantes de desenvolvimento rural impostos pelo agronegócio. Ao mesmo tempo, dezenas de milhares de trabalhadores e trabalhadoras do campo incorporam a proposta agroecológica como caminho para a revalorização do diversificado patrimônio de saberes e práticas de gestão social dos bens comuns e de reafirmação do papel da produção de base familiar como provedora de alimentos para a sociedade.

A Carta Política foi aprovada e aclamada pela plenária | Foto: Fábio Caffé

A Carta Política foi aprovada e aclamada pela plenária | Foto: Fábio Caffé

No III ENA pudemos constatar que a incorporação do enfoque agroecológico é também expressão da resistência da produção camponesa e familiar às crescentes pressões sobre ela exercidas pela ocupação de seus territórios pelo agronegócio e pelos grandes projetos de infraestrutura e de exploração mineral. Na análise que realizamos sobre os conflitos territoriais que se intensificaram nos últimos 15 anos, com o favorecimento das políticas públicas à expansão do grande capital no campo, constatamos que ao resistir em seus lugares de vida e produção, a agricultura familiar camponesa e os povos tradicionais produzem respostas consistentes e diversificadas para críticas questões que desafiam o futuro de toda a sociedade.

Reforma agrária e reconhecimento dos territórios dos povos e comunidades tradicionais, a afirmação da nossa sociobiodiversidade, conflitos e injustiças ambientais, agrotóxicos e seus impactos na saúde, acesso e gestão das águas, articulação ensino, pesquisa e ater, educação no campo, sementes da diversidade, abastecimento e construção social de mercados, normas sanitárias, financiamento e agroecologia, plantas medicinais, agricultura urbana, e comunicação, foram alguns dos temas abordados.

É com base nos ensinamentos extraídos nos debates realizados durante o Encontro que foi elaborada a Carta Política com proposições relacionadas aos temas que mobilizaram o esforço coletivo de reflexão feito no III ENA.

Veja aqui a Carta Política do III ENA

Seminário debate Ater, Ensino e Pesquisa no III ENA

Seminário debate Ater, Ensino e Pesquisa no III ENA

IMG_6583Por Eduardo Sá, da Associação Brasileira de Agroecologia (ABA)

Três experiências desenvolvidas pelas organizações sociais no campo serviram de exemplo para estimular a reflexão em torno da construção do conhecimento agroecológico. A interação entre Assessoria Técnica e Extensão Rural (Ater), Pesquisa e Ensino foi alvo de análise do seminário temático durante o III Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), na manhã do dia 18, tendo a Associação Brasileira de Agroecologia (ABA) à frente da atividade. Participaram o secretário nacional da Agricultura Familiar (SAF/MDA), Valter Bianchini, e Waldir Stumpf, diretor de transferências de tecnologia da Embrapa.

O trabalho construído pela Rede Ater Nordeste, organização que envolve diversas entidades na assessoria técnica aos agricultores da região, foi uma das exposições. De acordo com GiovanneXenofonte, da ONG Caatinga, todo o processo foi pensado junto aos agricultores com uma leitura do agroecossistema entre o técnico e a família.“O exercício de aproximar os olhares para enxergar a mesma realidade.A partir dessa leitura coletiva a discussão de um conjunto de elementos agroecológicos para refletir sobre as políticas públicas, como elas potencializam ou inibem os trabalhos. Em 2008 conta com apoio do Ministério do Meio Ambiente/PDA com uma chamada em Rede, e através de estudos consegue envolver pessoas e aproximar visões a partir do que está sendo feito pelas famílias”, disse.

Outro projeto frutífero na região nordeste é o desenvolvido em 14 municípios no agreste da Paraíba pelo Pólo da Borborema. Articulado pelos sindicatos locais, o trabalho nasce em 1993 em parceria com a AS-PTA tendo os movimentos sociais um papel fundamental nas lutas pelosterritórios dos camponeses, disse Roselita Vítor, da coordenação do Polo. O direito à comercialização e às previdências foram algumas das principais reivindicações à época, e todas as pautas eram norteadas por alguns princípios: construção coletiva do conhecimento a partir da realidade local, agricultores com a assessoria, resgate do conhecimento dasfamílias, necessidade de pensar políticas que representem essa diversidade, um processo de experimentação que nasce a partir dos agricultores, etc.

Neste contexto, o tema das sementes sempre foi importante, assim como a criação animal. As visitas de intercâmbio são utilizadas como princípio da disseminação do conhecimento por toda a região. A realização de seminários com sindicatos vizinhos e amobilização em torno de temas também fizeram parte dessa história. Existem hoje mais de 300 experiências sistematizadas, vídeos produzidos, dados com impactos do trabalho, quase9 mil cisternas, 80 bancos de sementes, 4 mil toneladas estocagem de forragem, 8 feiras agroecológicas, etc.

A terceira experiência relatada foi o Grupo de Agroecologia e Campesinato, que surgiu a partir da chamada do edital 58 do CNPq, formado por estudantes e professores/pesquisadores. O trabalho é realizado no Vale do Jequitinhonha, norte de Minas Gerais, região caracterizada pelo extrativismo e a agricultura camponesa tradicional com sementes crioulas. Há também conflitos com a monocultura do eucalipto, e a agricultura diversificada é a forma de resistência da população local. Daí a necessidade de uma rede a partir das suas estratégias e ações em conjunto.

IMG_6508De acordo com Paulo Petersen, da AS-PTA, as três experiências seguiram a proposta do III ENA ao evidenciar as disputas nos territórios com os grandes projetos e o agronegócio que inviabiliza a agroecologia. E as políticas para agricultura familiar e produção do conhecimento são cada vez mais necessárias, pois o modelo hegemônico está cada vez mais interessado nesse mercado, complementou.

“A gente não pode mais falar de conhecimento que vem do técnico para o agricultor, já discutimos isso no I e II ENA, está mais que constatado que os agricultores são produtores de conhecimento. É preciso pensar instrumentos políticos para potencializar o conhecimento dos territórios, ouvir quem vive nesses espaços. Não é a assessoria e ONGs, são as próprias organizações que têm de fazer essa valorização, eles precisam assumir o papel de produtor dessas redes”, destacou.

Petersen alertou para formação dos agrônomos que, segundo ele, são formados para pensar tematicamente e transformar os agricultores em grandes empresários embora a agricultura camponesa não funcione na lógica dos mercados. Ele defende que as análises não se limitem às famílias em transição agroecológica, e sim aos territórios com as redes: “Se não ficaremos falando o resto da vida de famílias isoladas. O desafio para nós como assessoria e as políticas públicas é pensar formas e editais para intensificar os grupos de agroecologia e a formação de redes”, concluiu.

Governo busca ampliar Ater

As experiências relatadas têm um significado muito forte, afirmou o secretário nacional de Agricultura Familiar, Valter Bianchini, que lembrou a construção da política nacional de Ater em 2003. O projeto da Rede Ater Nordeste,segundo ele, é um instrumento coletivo de coordenação articulada com diferentes atores e com protagonismo dos agricultores e agricultoras.

“Somos formados achando que tudo é homogêneo, mas o próprio conceito de agricultura familiar é mais complexo e os arranjos dos sistemas em sua biodiversidade. Ainda temos muitos desafios, fazer essa leitura dos ecossistemas para convivermos com diferentes sistemas de produção. Reconhecendo a importância dessa horizontalidade dos conhecimentos, o compartilhamento e intercâmbio para essa construção. Estão juntas aqui a Ater governamental e não governamental, um saber importante acumulado, precisamos ouvir e debater. Entender como isso pode se transformar em apropriação e novas demandas”, disse.

Ele destacou a importância do plano com a integração de dez ministérios, e afirmou que sua meta é aumentar a assistência técnica para 150 mil até 2015 e avançar no envolvimento das universidades com editais.O secretário também destacou que não há incompatibilidade entre crédito e agroecologia, mas reconheceu que é preciso alterar os mecanismos de forma a não condicioná-los ao produto ou a safra. Sua expectativa é que após 2015 o plano seja renovado para “consolidar essa semente para próxima década e garantir a segurança alimentar e toda a multifuncionalidade que o meio rural tem”.

A pesquisa na Embrapa

IMG_6530Criada há mais de 40 anos, em 1973, a Embrapa é uma empresa vinculada ao governo que pesquisa novas tecnologias para produção rural no país. Alvo de críticas dos movimentos sociais do campo e pesquisadores independentes, tem buscado reconfigurar seus métodos e procedimentos, segundo o diretor de Transferência de Tecnologia da Embrapa, Waldir Stumpf.

“Estamos rediscutindo, rearranjando nossa relação com os agricultores e a sociedade, e a própria relação com o governo em diversos ministérios. Talvez hoje a pesquisa privada seja muito mais forte, e como buscamos convergências das políticas públicas com a sociedade?A difusão de transferência tem uma lógica industrial, precisamos reconhecer os saberes dos agricultores e valorização dos territórios”, ressaltou.

O gestor lembrou que o Brasil possui 800 milhões de hectares, 6 biomas, um conjunto de agroecossistemas que não conhecemos, portanto é necessário trabalharmos com toda essa diversidade, inclusive climática, étnica e cultural, etc. Ele reconheceu que a lógica dos pacotes tecnológicos é trabalhar para os agricultores e não com eles.

“São 47 unidades espalhadas em todo o Brasil, com mais de 150 pesquisadores fora os parceiros,mas não se dá visibilidade ao trabalho. A agroecologia na Embrapa é muito nova, começa a ser internalizada a partir de 1994 quando os primeiros técnicos começaram a ter uma formação nessa lógica. Em 2006 construímos o marco referencial da agroecologia, que precisa ser revisto e atualizado, e foram criados os primeiros projetos. E agora temos uma visão regional e não nacional, com foco nos territórios, na construção de redes”, concluiu.

Plenária

Os participantes pediram a palavra para o diálogo com os gestores. Algumas questões foram problematizadas: dificuldade de disputar os editais, pois precisa de uma série de comprovações e documentos, às vezes mais de 100 páginas; dificuldade de ampliar projetos bem sucedidos e lhes dar continuidade; fortalecimento do Ministério do Desenvolvimento Agrário para garantir a participação social na política de Ater, pois falta quadros dentro do órgão e a Lei de Ater exige a contratação de um agente do ministério para acompanhamento dos projetos; etc.

Foto: Francisco Valdean/Imagens do Povo.