Abrasco apresenta 2º Sibsa durante Encontro Nacional de Agroecologia

Abrasco apresenta 2º Sibsa durante Encontro Nacional de Agroecologia

seminario agrotoxicosPor Vilma Reis, da Abrasco

O 3º Encontro Nacional de Agroecologia (ENA) reuniu mais de duas mil pessoas no campus da Universidade Federal do Vale do São Francisco, em Juazeiro, na Bahia. De 16 a 19 de maio, a Articulação Nacional de Agroecologia, recebeu generosamente representantes vindos de todos os estados brasileiros, aumentando a ação política e a divulgação do campo agroecológico.

Através do Seminário Saúde e Agrotóxicos, a Abrasco – representada pelo GT Saúde e Ambiente, contou com a participação das professoras Lia Giraldo e Raquel Rigotto, além de Ary Miranda, Guilherme Franco Netto e André Búrigo. O Seminário foi construído em parceria com a Rede Brasileira de Justiça Ambiental e com a Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida, com o objetivo de mobilizar em ações integradas que promovam a revisão e o debate sobre os diversos aspectos ligados ao uso de agrotóxicos e seus impactos.

‘Lá vem o negão com seus envenenados’

Foi esta a infeliz expressão que ficou na memória do professor Hugo Santos, que diz ter ouvido a frase por diversas vezes , ao longo da sua jornada pelo esclarecimento do crime cometido há um ano na Escola do assentamento Pontal dos Buritis, em Rio Verde (Goiás), quando crianças tomaram um banho de agrotóxicos em função da pulverização aérea de veneno.

Hugo fez seu relato no Seminário, emocionando todos os participantes com os tristes detalhes daquela manhã de maio de 2013: “Estávamos no pátio quando vimos o avião, era hora do lanche e neste dia tínhamos galinha caipira com verdura, alguns meninos correram felizes pois nunca tinham visto um avião voando tão baixo, foi quando aquela chuva borrifou nosso almoço. Foi quando nos envenenaram. Minha aluna Vanessa foi internada 18 vezes, algumas meninas começaram a menstruar 3 vezes ao mês mas nenhum médico deu laudo de intoxicação. A Secretaria Municipal de Educação mandou lavar e depois reabriu a escola, no primeiro dia de aula após o crime, das 60 crianças que vieram para a aula, 47 crianças passaram muito mal. Recebo ligações com intimidações, ameaças de morte. Ninguém nos ajudou e quando fomos ao senado fazer um depoimento, fomos humilhados. Estávamos estudando, tentando nos tornar melhores brasileiros. Aquilo não foi um acidente, foi um crime”, lembra Hugo.

A seguir ao relato do professor, houve debate, a professora Lia Giraldo lembrou o apoio técnico que a Abrasco deu, além da participação das audiências públicas e comenta ‘ninguém quis assumir nenhuma responsabilidade e muitas informações foram deturpadas’. Também membro do GT Saúde e Ambiente, Guilherme Franco Netto sugeriu a redação urgente de uma Moção de apoio que seja enviada aos deputados federais e senadores ‘para que seja dado encaminhamento e apuradas efetivamente as consequências’.

raquel rigotoPresente no Seminário, o procurador do Ministério Público do Trabalho e presidente do Fórum Baiano de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos, Pedro Luiz Serafim, lembrou o polêmico caso francês onde um agricultor foi condenado pela Justiça da França por não usar agrotóxicos, Emmanuel Giboulot teve que pagar pouco mais de R$ 1,5 mil (veja aqui a matéria completa), o procurador deixou o alerta ‘Não é possível desenvolver o programa de agroecologia com essa política de não proporcionar a redução/limitação do uso de agrotóxicos’. A relatoria foi feita por André Búrigo (Comissão Científica do 2º Sibsa) e Flávio Duarte (representante da organização não governamental Centro Sabiá).

‘Que bom que tivemos o 3º ENA no caminho do 2º Sibsa’

À sombra de uma mangueira frondosa, no finzinho da tarde, a Abrasco apresentou o 2º Simpósio Brasileiro de Saúde e Ambiente – 2º Sibsa. A apresentação contou com a presença de representantes de movimentos sociais que têm interesse em fazer parte da construção do simpósio, onde o tema central será Desenvolvimento, Conflitos Territoriais e Saúde: Ciência e Movimentos Sociais para a Justiça Ambiental nas Políticas Públicas, que para efeito da realização das atividades foi divido em três eixos – Desenvolvimento Socioeconômico e conflitos territoriais;A função social da ciência, ecologia de saberes, e outras experiências de produção compartilhada de conhecimento; Direitos, justiça ambiental e políticas públicas.
O Simpósio tem o propósito de congregar e propiciar o diálogo entre a comunidade de pesquisadores, acadêmicos, gestores, profissionais de saúde e movimentos sociais em torno dos conflitos territoriais em curso no país, seus desafios e alternativas para a garantia do direito à saúde e da justiça ambiental, na perspectiva da ciência, das políticas públicas e da ação política da sociedade.

Ao longo da apresentação, várias ideias foram registradas pelos membros da Comissão Científica Marcelo Firpo, André Búrigo, Raquel Rigotto, Ary Miranda e Guilherme Franco Netto – para futuros ajustes na programação. Para Raquel Rigotto, demos ‘um passo a mais na construção do campo da Saúde Coletiva em sua dimensão de movimento, um passo a mais na concretização, pela Abrasco e o GT Saúde & Ambiente, da função social da ciência, reconhecendo a riqueza dos saberes dos territórios, povos e movimentos sociais para a promoção da saúde, da equidade e da justiça’, pontua a professora.

Confira a lista dos Movimentos Sociais que participaram da reunião:

Sindicato dos Trabalhadores Rurais (STR) de Governador Valadares/MG
Coordenação da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida de Minas Gerais
Comitê da Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e pela Vida do Vale do Jequitinhonha/MG
Centro Agroecológico Tamanduá (CAT), de Governador Valadares/MG
Centro Agroecológico Tamanduá (CAT), de Periquito/MG
AICÓ Culturas
Cáritas Diocesana do Baixo Jequitinhonha/MG
Centro de Agricultura Alternativa Vicente Nica (CAV), de Turmalina/MG
Grupo Aranã de Agroecologia, Diamantina/MG
Marcha Mundial de Mulheres (MMM), representação de Diamantina/MG
Pastoral da Juventude Rural (PJR), de Lajinha/MG
Rede Brasileira de Justiça Ambiental (RBJA)
Povo Indígena Xakriabá, de São João das Missões/MG
Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura Familiar (SINTRAF), de Espera Feliz/MG
Articulação do Semiárido (ASA), Minas Gerais
Rede de Educação Cidadã (Recid), Belo Horizonte
Núcleo de Agroecologia e Campesinato (NAC) da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri (UFVJM)

raquel rigotoO final do 3º ENA foi pontuado pelos atos públicos durante a manhã, que aconteceram simultaneamente, nas cidades de Juazeiro e Petrolina. A plenária final sob o tema “Por um Brasil Agroecológico”, redigiu uma carta política sobre as discussões nas atividades e demandas do movimento agroeocológico.

Leia na íntegra a Moção redigida no Seminário Saúde e Agrotóxico, durante o 3º ENA:

MOÇÃO DE REPUDIO CONTRA O VENENO DO AGRONEGÓCIO EM RIO VERDE (GO)

Um ano e duas semanas depois, os participantes do 3º Encontro Nacional de Agroecologia (ENA) exigem a efetiva responsabilização dos envolvidos no crime de pulverização de agrotóxicos sobre 122 crianças e funcionários de uma Escola do Campo e a garantia ao tratamento digno dos atingidos à seus direitos.

Os mais de 2000 participantes reunidos em Juazeiro (Bahia), de 16 a 19 de maio de 2014, para o 3º ENA sob o tema Cuidar da Terra, Alimentar a Saúde, Cultivar o Futuro assinam esta Moção de Repúdio em solidariedade aos funcionários, estudantes, professores da Escola do Assentamento Pontal dos Buritis. A escola fica na área rural do município de Rio Verde (GO) e as pessoas ainda sofrem com a violência do agronegócio e violação de seus direitos, desde que um avião de pulverização aérea de agrotóxicos fez “chover” veneno sobre a escola.

Somos agricultores e agricultoras, trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, pesquisadores e pesquisadoras, de diferentes movimentos sociais, organizações não governamentais e instituições públicas, indígenas, quilombolas e muitos outros grupos que representam a multiplicidade de territórios e povos de nosso país.

Entre os diferentes temas que refletimos nesse 3º ENA dedicamos momentos para a questão do uso de Agrotóxicos e seus impactos na Saúde. Não temos dúvidas de que chegamos a uma situação de uso de agrotóxicos no Brasil absolutamente insustentável, insuportável, inaceitável, que precisa ser urgentemente revertida. Muitas pessoas têm adoecido e morrido pelo uso de agrotóxicos. São muitos casos de intoxicações, de câncer, de suicídios, de alteração do desenvolvimento das crianças e adolescentes e de muitos outros impactos na saúde e no meio ambiente. É muito sofrimento! Quando denunciamos as relações entre o uso de agrotóxicos e adoecimento somos perseguidos e ameaçados. Basta!
Nesse nosso encontro relembramos o caso da chuva de venenos agrícolas sobre a Escola do Assentamento Pontal dos Buritis ocorrida no dia 3 de maio de 2013. A Secretaria Municipal de Saúde e a Prefeitura de Rio Verde (GO), assim como a Secretaria Estadual de Saúde e o Ministério da Saúde não têm garantido o direito dos atingidos a um atendimento digno de acordo com a Constituição Federal de 1988. Assim como os poderes Judiciário e Legislativo, a imprensa que domina os meios de comunicação, e o agronegócio como um todo, com pouquíssimas exceções, fazem um esforço para colocar no esquecimento essa triste situação marcada por muitas formas de violência direta e institucional.

Esse não é um fato isolado e não pode ser chamado de acidente. Trata-se de um crime que se repete pelo Brasil, e que justifica nosso pleito pela proibição da prática da pulverização aérea de agrotóxicos!

Exigimos das autoridades que tratem desse caso de forma exemplar, na resposta do poder público em garantir todos os direitos aos atingidos, e na responsabilização de todos os envolvidos, desde a empresa de pulverização aérea aos segmentos da cadeia produtiva que culminou na tragédia da chuva de veneno sobre a escola.

Acolhemos o sofrimento dessas pessoas como NOSSO sofrimento. Deliberamos no 3º ENA que não deixaremos esse caso impune! Não descansaremos enquanto todos os direitos sejam garantidos aos atingidos! Educação do campo e saúde são direitos das populações do campo!

Economia solidária e agroecologia somando forças na construção de alternativas ao agronegócio

Economia solidária e agroecologia somando forças na construção de alternativas ao agronegócio

ato na pontePor Ligia Bensadon, do FBES

Durante o III ENA, a pauta da construção das alternativas da economia solidária e da agroecologia estiveram articuladas a denúncia e a resistência nos territórios visualizados de norte a sul do país, nos seminários temáticos, oficinas e nas sessões simultâneas. Essa construção ganha passos importantes e segue num processo desafiante de diálogos e convergências de pautas e práticas entre redes e movimentos sociais, principalmente desde o processo do Encontro Nacional de Diálogos e Convergências em 2011. Confira algumas das expressões do diálogo entre a economia solidária e da agroecologia presentes no III ENA.

No caso das experiências produtivas foram inúmeros os relatos, por exemplo, em Santa Catarina a Afaooc, uma cooperativa de 13 mulheres produz para uma feira local produtos agroecológicos, em práticas de pluriatividade, com organização para logística e comercialização conjunta, com certificação participativa junto a Rede Ecovida de Agroecologia. Já na Bahia, mutirões nas terras de agricultores vizinhos é o que viabiliza a colheita e a construção de cisternas. Também em terras baianas um grupo de jovens gere um empreendimento de economia solidária em projeto de caprinocultura, comercializando através do PNAE, melhorando a auto-estima e mantendo os jovens no campo.

Em outra experiência, Diva, cooperada da Apaco-SC, cooperativa que há 25 anos atua no oeste catarinense, diz que “se não fosse pelas práticas da economia solidária não teríamos sobrevivido”, hoje se organizam em mais de 164 agroindústrias, acessaram crédito, com o desafio de fazer uma maior articulação com as iniciativas solidárias urbanas.

Na plenária das mulheres, cujo lema ecoou em todo o encontro “Sem feminismo não há agroecologia”, de forma semelhante a economia solidária também traz o lema “sem feminismo não há economia solidária”, e diversos foram os apontamentos de que a luta pela igualdade entre homens e mulheres passa pela autonomia econômica das mulheres, pelo reconhecimento e compartilhamento dos trabalhos de cuidado e reprodução da vida, enfim por uma mudança nas relações humanas, e das formas (re)produtivas que valorizem a vida.

No ENA diversas destas experiências foram visibilizadas, na produção dos quintais domésticos levando alimento e saúde para casa, no beneficiamento de produtos, como geléias e farinhas, no cuidado com as sementes. De acordo com Maria José, presidente da Central do Cerrado, empreendimento de economia solidária que atua para comercialização de produtos da sociobiodiversidade do cerrado, presente em 7 estados, “o fornecimento dos produtos na Central é de 90% vindos de agricultoras, mas o desafios ainda está para a conquista do crédito”. Rubenice, da Associação Tijupá de Agroecologia complementou o debate “a economia solidária é o caminho para a autonomia das mulheres, sem economia solidária também não há agroecologia, uma precisa da outra para se consolidar, são os mesmos princípios”.

feiraNo Seminário de acesso a mercados e consumo, também foi aprofundada a relação entre práticas agroecológicas e solidárias, a partir da apresentação das experiências da Rede Ecovida no sul do país, da Associação Regional de Produtores Agroecológicos-MT e da RedeMoinho-BA. Um dos destaques foi a importância da articulação como um caminho para a efetivação das iniciativas, seja para formar circuitos de produção, comercialização e abastecimento de proximidade, acesso a mercados institucionais, manutenção das feira agroecológicas locais e no fortalecimento da pauta política destes movimentos sociais. Dentre os desafios foi apontada a logística e a necessidade de tarifas diferenciadas de circulação; a efetivação do PLANAPO (Plano Nacional de Agroecologia); normas de legislação sanitárias e legislação acessível e adequadas a realidade dos grupos produtivos; desburocratização do PAA; intensificar a denúncia contra os grandes grupos e monopólios de produção e abastecimento das cidades, entre outros.

Outro importante debate durante o seminário foram os casos de criminalização do PAA, com relato de João Antônio, agricultor do Paraná que teve o irmão preso por 2 meses devido a uma operação da política federal, no final do ano passado. De forma emocionante, João relatou o sofrimento e o impacto da operação que tratou os agricultores como criminosos, gerando desconfiança pela comunidade e também dos agricultores para acessarem o programa. “Será que valeu a pena ter investido neste programa? Houve um erro na compreensão da nota fiscal, mas isso não justifica que a polícia tenha revirado a casa e prendido meu irmão de forma humilhante”. A família até hoje sofre com a questão, tanto pelos danos morais, quanto por não ter sido paga há 8 meses pelo fornecimento realizado. O caso também precisa de apoio jurídico, para acompanhar o processo. Embora o PAA seja um dos programas mais importantes aos agricultores e agricultoras para acesso a mercados, há uma onda de criminalização e de aumento da burocracia. Do seminário foi retirada uma moção de apoio as famílias atingidas pela criminalização.

Na Oficina promovida pelo FBES “Economia Solidária: organização coletiva das práticas agroecológicas”, dentre os destaque foi vista a importância do papel do consumidor que é tão importante quanto a da produção, no entendimento de que o consumo é um agente e impulsionador da produção, que pode contribuir para outro mundo e na articulação do campo com a cidade, buscando caminhos de promover estas práticas através dos Coletivos de Consumo, por exemplo. Os participantes também puderam compreender o significado da economia solidária, para além da questão da geração de renda e organizativa, segundo a militante do MST da Paraíba “Estamos num processo de construção de alternativas, o que tem haver economia solidária com agroecologia é a construção de novos valores, solidariedade, vida coletiva, distribuição igualitária, não é apenas produção, em todas estas experiências forjamos grupos solidários, no semi-árido, de sementes, fundos rotativos, de mulheres que buscam construir coletivamente outras formas de produção e busca de novos valores, tanto de valores quanto de igualdade, em meio a essa contradição do mercado, do capital, não adianta sonhar com outra sociedade se não constrói agora”.

Na linha desta importante articulação, Chicão, do MST, apontou a importância do ENA para a unidade de pensamento e das práticas, que sinalizam o futuro da sociedade e que é uma luta política de classe e de um novo projeto. “Temos que unificar o conteúdo, que se expresse em formas diversas como o é a realidade brasileira”. Sobre a relação com a economia solidária aponta que “a economia solidária se encaixa perfeitamente neste processo, tem uma nomenclatura diferente, mas o princípio é o mesmo”. Quanto aos desafios para as convergências, “temos que avançar na luta política, no enfrentamento político, fazer grandes mobilizações sociais, não ficar apenas na negociação”.

Por fim, e de forma complementar, Douneto, da CPT de Góias, avalia que a “unidade na luta não significa uma desfiliação do movimento social de origem, quando juntamos pessoas alavancamos a militância e ocupamos espaços para nosso projeto. A denúncia vem junto com as propostas, não seremos meros reivindicadores, levamos propostas e buscamos sinergia não só para quem está na luta diretamente, mas para todas as periferias rurais e urbanas”.

Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) entrega carta política ao Ministro Gilberto Carvalho

Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) entrega carta política ao Ministro Gilberto Carvalho

Paulo Petersen, da AS-PTA, e Maria Emília Pacheco, presidente do Consea, lendo a carta política. Foto: Fabio Caffé/Imagens do Povo.

Paulo Petersen, da AS-PTA, e Maria Emília Pacheco, presidente do Consea, lendo a carta política. Foto: Fabio Caffé/Imagens do Povo.

Por Eduardo Sá, da ANA

Antes da celebração de encerramento do III Encontro Nacional de Agroecologia, que ocorreu às margens do Rio São Francisco em meio ao belíssimo pôr do sol, com uma mística repleta de músicas, confraternizações e benzedeiras, ocorreu a entrega da Carta Política do III ENA ao Ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria Geral da Presidência da República. O documento foi construído coletivamente pelos mais de 2 mil participantes, fruto dos relatórios e discussões das atividades programadas, refletindo o Brasil Agroecológico almejado pela diversidade de movimentos da ANA. O documento apresenta respostas às crises atuais que a sociedade enfrenta.

A avaliação geral expressa na Carta é a agroecologia como opção estratégica cada vez mais compreendida e difundida por diversos setores da sociedade, na perspectiva de um modelo com alimentação saudável, saúde coletiva, preservação do meio ambiente, trabalho com distribuição de renda e oportunidade aos jovens, dentre outros elementos. O direito ao acesso a terra e ao território aparece como a principal necessidade das diferentes identidades étnico culturais rumo às mudanças estruturais que viabilizam a ampliação de escala das experiências agroecológicas. As mulheres reafirmaram com ênfase que “sem feminismo não há agroecologia”, e o repúdio aos transgênicos foi ovacionado pela plenária: “Dinheiro público não deve ser usado para compra de sementes transgênicas”, diz a carta aplaudida por todos.

"Agroecologia é vida, agronegócio é morte!", gritaram na plenária os participantes. Foto: Fabio Caffé/Imagens do Povo.

“Agroecologia é vida, agronegócio é morte!”, gritaram na plenária os participantes. Foto: Fabio Caffé/Imagens do Povo.

Os grandes mercados alimentícios, o monopólio da comunicação, dentre outras formas hegemônicas que compõem o agronegócio no país em aliança com Estado Brasileiro, estão sendo rompidos graças às mobilizações da sociedade civil. “O agronegócio constitui hoje o principal obstáculo para a agroecologia, e está cada vez mais clara a incompatibilidade de convivência desses modelos. O Brasil não pode continuar sendo o maior consumidor de agrotóxicos no mundo”, afirma a Carta. Os participantes do III ENA reivindicam o fim da pulverização aérea e o banimento de agrotóxicos proibidos em outros países, pois é “uma questão de saúde pública e segurança nacional” devido aos muitos casos de intoxicação, câncer, suicídios, alterações hormonais, impactos ao ambiente etc.

O acesso e gestão das águas foi outra pauta em destaque, destacando não só a sua essência de bem comum público mas também denunciando os projetos que vêm impactando diversas populações. Por outro lado, políticas públicas de estocagem de água, como as cisternas de placa no semiárido brasileiro em parceria com a sociedade civil, foram elogiadas. O projeto de perímetro irrigado na Chapada do Apodi, que prejudica a vida de milhares de famílias no Rio Grande do Norte e Ceará, foi mais uma vez contestada: “Fomos completamente expulsos das nossas terras, esse modelo de perímetro irrigado vai destruir os assentamentos. Tivemos em Brasília duas vezes, mas as promessas de lá nunca foram cumpridas. O governo nos garantiu que o projeto seria revisto, então o que nos resta é lutar pelo nosso território. Por que para o agronegócio tudo sai rápido e para a agricultura familiar não chega? Só chega destruição, veneno, etc?”, criticou Francisco Edilson Neto, presidente do Sindicato dos Trabalhadores e Trabalhadoras Rurais de Apodi (RN).

Ministro Gilberto Carvalho lendo a carta política do III ENA. Foto: Fabio Caffé/Imagens do Povo.

Ministro Gilberto Carvalho lendo a carta política do III ENA. Foto: Fabio Caffé/Imagens do Povo.

A expansão de grandes empreendimentos (hidrelétricas, ferrovias, exploração de minérios, etc) têm resultado em disputas territoriais que implicam em violências policiais por parte do Estado, que tem atuado como parceiro das grandes corporações, aponta a carta. Nesse contexto, os assassinatos de lideranças, a criminalização dos movimentos sociais e ambientalistas e a sistemática devastação da biodiversidade têm aumentado, assim como o emblemático fortalecimento dos movimentos de resistência e propostas de alternativas.
Normas sanitárias, abastecimento e construção social de mercados, financiamento, plantas medicinais, agricultura urbana, comunicação, assistência técnica, ensino e pesquisa, foram alguns dos temas também tratados na carta, assim como suas respectivas críticas e propostas. “Reafirmamos nosso compromisso e disposição de luta pela transformação da ordem dominante nos sistemas alimentares”, conclui. Também foram entregues ao governo diversas moções e cartas, dentre elas a dos povos indígenas com a assinatura de lideranças de quinze etnias.

As respostas do governo federal

De acordo como o Secretário Nacional da Agricultura Familiar, do Ministério do Desenvolvimento Agrário, Valter Bianchini, é muito acertada a luta das mulheres na agroecologia, já que, em quase 10 mil anos da agricultura, elas são as responsáveis históricas pela coleta de sementes, a criação de animais e uma relação mais harmônica com a natureza. Na semana que vem a presidente Dilma lançará o Plano Safra com novidades nas políticas de crédito, de forma a atender melhor a agricultura familiar, anunciou.
“Temos de até 2015 universalizar a Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) a todos os agricultores que estão na agroecologia. Com as chamadas vamos iniciar um programa de construção do conhecimento, redes de agroecologia, mais de 2 mil técnicos e uma rede de pesquisadores. Com avanços também na pesquisa e mais comprometimento no trabalho com a diversidade, as mulheres e juventudes, todas as iniciativas da Política Nacional de Agroecologia e Produção Orgânica. Queremos horizontalizar os conhecimentos, rumo a um modelo que futuramente será responsável pela segurança alimentar”, disse.

Carvalho afirmou que o atual modelo de desenvolvimento está esgotado e é preciso revê-lo corajosamente. Foto: Fabio Caffé/Imagens do Povo.

Carvalho afirmou que o atual modelo de desenvolvimento está esgotado e é preciso revê-lo corajosamente. Foto: Fabio Caffé/Imagens do Povo.

O ministro Gilberto Carvalho recebeu a carta dos movimentos afirmando que as propostas do campo agroecológico integram um “programa inteiro” de governo e, por essa razão, são pesadas ao Estado no sentido da sua responsabilidade para respostas efetivas às importantes questões cobradas. Segundo ele, o atual modelo de desenvolvimento está esgotado por ser baseado no consumismo e em princípios mortais para o futuro da humanidade e precisa ser revisto corajosamente.

“É um novo modelo de sociedade que precisamos implantar nesse país. É muito importante que vocês tenham essa consciência com papel inovador de vanguarda e profético que representam ao afirmar na palavra e não só no cultivo da terra, nas propostas que vocês apresentam. É de fato um enorme avanço e um sonho de sociedade que queremos e desejamos. E esse encontro, de alguma forma, prefigura o modelo de sociedade que nós sonhamos, porque vocês não falam só do cultivo da terra, vocês falam da relação com a natureza, com o alimento, a saúde, ambiente, e com a pessoas – a mulher, a criança, o outro”, destacou

Diversas moções foram entregues ao ministro, inclusive uma indígena assinada por lideranças de diversas etnias. Foto: Fabio Caffé/Imagens do Povo.

Diversas moções foram entregues ao ministro, inclusive uma indígena assinada por lideranças de diversas etnias. Foto: Fabio Caffé/Imagens do Povo.

Mas sem uma reforma política essa carta, que o ministro se comprometeu a entregar à Presidenta Dilma, não se tornará realidade, complementou Carvalho. Para ele, as propostas são de uma grande bondade mas ainda não representam a maioria dos nossos cidadãos. “A vanguarda precisa fazer uma estratégia de maiorias. Sem realizarmos a reforma política essa cartar não vai se tornar realidade. Não há correlação de forças hoje para que essa carta se torne realidade. As questões estruturais, enquanto houver a bancada dos latifundiários como maioria no Congresso Nacional, não conseguiremos avançar como precisamos. Precisamos garantir um Congresso que de fato represente a maioria dos brasileiros e não a minoria do poder econômico”, ressaltou.

O ministro anunciou ainda que os moradores de Apodi (RN) não ficarão desamparados e fará uma visita ao território, junto a outros ministros de Estado, para conversar novamente sobre o assunto. Respondendo às críticas dos movimentos em relação às prisões de agricultores envolvidos em falsas denúncias no Paraná sobre o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA), Carvalho afirmou que o programa é fundamental para o governo. “O PAA é sagrado para nós, é o melhor programa que construímos até hoje, e teve gente que acabou sendo presa injustamente”, disse.

O III ENA foi encerrado com muita animação e tendo cumprido o objetivo de fortalecimento da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA) como uma rede nacional, que mobiliza e atua politicamente para Cuidar da Terra, Alimentar a Saúde e Cultivar o Futuro.

“Não há possibilidade de produzir agroecologia plena num país onde predomina o grande capital”

“Não há possibilidade de produzir agroecologia plena num país onde predomina o grande capital”

Foto: Fabio Caffé/Imagens do Povo

Foto: Fabio Caffé/Imagens do Povo

Por Alan Tygel, da página do MST

Durante o III Encontro Nacional de Agroecologia, realizado entre os dias 16 e 19 de maio de 2014, diversos camponeses e camponesas do MST estiveram em Juazeiro (BA) para trocar e compartilhar saberes. A agroecologia foi a força que uniu mais de 2000 pessoas durante os 4 dias de evento, nos quais houve feira, debates, filmes, atividades culturais e, sobretudo, muita luta.

Chicão, coordenador do Setor de Produção do MST, avalia que o momento político é de união na luta pela agroecologia: “Eu sinceramente não acredito que haja grandes mudanças, seja com os atuais candidatos hoje à presidência da república, ou com outros que virão. As mudanças foram feitas pelo povo, nunca vieram da burocracia, dos aparelhos do Estado. O fator mais importante hoje é o povo se unir, se unificar em tornos de propostas claras e ir pra rua defender essas ideias.”

Para ele, agroecologia é mais do que agricultura sem venenos: “É outra filosofia de vida, não é a filosofia do grande capital aplicada na agricultura, na indústria e no sistema financeiro. ”

Nesta entrevista, Chicão afirma que a agroecologia não será construída somente pelo povo do campo: “Ela tem que ser um sistema que se constrói com a sociedade inteira. Os agrotóxicos não são um problema exclusivo dos camponeses, é um problema de toda a sociedade, porque todo mundo se alimenta. Por isso é que nós precisamos unir as forças para ir construindo um novo sistema de produção, um novo sistema de vida que não seja baseado puramente na criação e acumulação de capital.

Confira a seguir a entrevista:

O que é que o MST veio trazer ao III Encontro Nacional de Agroecologia?

Aqui se configura como um local aonde a gente aprende muito. Nós trouxemos o nosso aprendizado que nós temos nos assentamentos, as experiências que nós temos de agroecologia sendo desenvolvidas, nossos cursos de formação em agroecologia e assim todo o universo que nós temos trabalhado dentro dos nossos assentamentos na perspectiva de ter um sistema diferente de produção através da agroecologia e produção orgânica. E daqui a gente também leva muito conhecimento das organizações que estão aqui, em diferentes regiões do país, que desenvolvem em outros biomas, então aqui há obviamente uma grande diversidade, e é um espaço muito grande e interessantíssimo de ponto de vista de aprendizado. De aprender, de conhecer de ver que o mundo não é o assentamento, que não é o estado, não é o bioma. Então aqui é uma possibilidade de ampliar os horizontes, de conhecer e aprender, acho que aqui é um espaço excelente nessa perspectiva.

O agronegócio diz que somos loucos e que queremos matar o mundo de fome. É possível alimentar a humanidade com produção de alimentos agroecológicos?

Eu não tenho dúvida. Nós já desenvolvemos algumas atividades agroecológicas que já indicam isso. Os nossos adversários sempre falam isso, porque eles se acham os únicos. São as contradições que movem o mundo, então os próprio latifúndio criou essa contradição, e ela moveu um novo tipo de agricultura, que se faz nos assentamentos, nas áreas indígenas, quilombolas, ribeirinhos, assim por diante. Nós temos por exemplo assentamentos que são coletivos que têm grande produção de arroz. Produzimos esse ano no Rio Grande do Sul mais de 300.000 toneladas de arroz agroecológico. Mas a gente não pode somente estar fixado na produção do grão.

Esse processo está fazendo com que se garanta a água de qualidade na região da Grande Porto Alegre. Antes, os fazendeiros do agronegócio aplicavam venenos em grandes quantidades na produção de arroz e nós entramos com a produção agroecológica, na qual tiramos um produto, que é o arroz agroecológico, e entregamos uma água de boa qualidade para a população. Acho que esse é o grande legado que os assentamentos do MST estão entregando para as gerações futuras. É importante produzir o produto agroecológico, mas o mais importante de tudo é deixar para as gerações futuras esse conhecimento, e a terra totalmente descontaminada de agrotóxicos que o agronegócio deixa.

Além do não uso de agrotóxicos, quais as outras dimensões da agroecologia?

Nós temos um conceito de agroecologia que é muito amplo. A agroecologia é uma ciência, um conhecimento dos povos tradicionais, e também um conhecimento científico. Nós entendemos que não há um avanço da agroecologia sem pensar na ciência como um todo. Entendemos também que a agroecologia deve respeitar todo o conhecimento histórico da humanidade. Deve também ser um instrumento de luta política, porque entendemos que o problema não é puramente tecnológico. A agroecologia define um conceito de vida. Que é você viver dignamente, óbvio, e também respeitando o meio ambiente. E fazendo disso uma luta para construir uma sociedade diferente, porque não há possibilidade de produzir agroecologia plena num país onde predomina o grande capital. Tudo que estamos fazendo é o novo que está surgindo dentro do velho. Esse sistema do agronegócio é um modelo velho que está caindo de podre. E surge o novo, que é a agroecologia. Esse é o elemento importante pra sociedade brasileira, para o mundo todo, que está surgindo o novo. Por isso, o III ENA está acontecendo num momento riquíssimo, do surgimento desse novo, de anunciar esse novo, de que as pessoas tenham conhecimento de como esse novo vai se construindo, e as experiências nos dão um ponto de partida, mas elas não podem parar naquilo que nós estamos fazendo. Temos que avançar no ponto vista político, agroecológico, filosófico, assim por diante, é outra filosofia de vida, não é a filosofia do grande capital aplicada na agricultura, na indústria e no sistema financeiro.

Falando em construção do novo, como é o processo de transição?

A transição é um momento muito importante, porque ela tem muito a ver com o método que a gente vai trabalhando. Eu sempre digo que a transição é um processo que não dá pra você definir um período de um ano, dois anos, três anos, ela é um processo, onde você construindo, educando, e vai aprendendo. A principal questão do método é quando começam a aparecer os resultados do ponto de vista da filosofia, da economia, do aprendizado, no qual você vai adquirindo conhecimento. Porque não se pode fazer o que faz o agronegócio, que transfere um pacote tecnológico. Então o período de transição é um período muito importante em função de você fazer a descoberta de muitos conhecimentos. E acho que aqui está colocada uma questão, nesse período de transição. Não podemos colocar um período definido, porque a agricultura não é como uma indústria, que você coloca matéria prima e sai o produto na frente agroindustrializado.

Vejamos o seguinte: no Nordeste, são três anos de seca, então nesses três anos você teve pouca experiência. Você não teve como ficar conhecendo, buscando resultados. Por isso não pode ser uma metodologia que você aplica em qualquer bioma, em qualquer região. Nosso país é um continente, de extensão muito grande, e a agroecologia tem que ter essa riqueza, de observar as regiões, os sistemas que se desenvolve ali, os conhecimentos que tem aí, pra você fazer esse processo de transição. Então o processo de transição pode ser totalmente diferente do sul, sudeste, pro centro-oeste, mesmo dentro da própria região nós temos muito microclimas, muitos tipos de solo diferentes, aonde você desenvolve técnicas diferentes, então a agroecologia é essa riqueza de conhecimento. Não é um pacote tecnológico que a gente pensa e elabora e você aplica no país inteiro.

As atividades relacionadas à saúde estão chamando atenção aqui no ENA. Já há uma percepção geral dos problemas na saúde causados pelos agrotóxicos?

O conceito de agroecologia que está sendo elaborado, e ele não está pronto, cada organização pode ir criando seu conceito, vai dando essa diversidade. E entendemos que o problema não é puramente técnico. Ele é também técnico, obviamente, mas ele é essencialmente político, essencialmente filosófico. Então há alguns assuntos que chamam a atenção, e a saúde é uma das questões que chama muita atenção, porque ela é um assunto comum a todos. E a aplicação do agrotóxico na agricultura sempre remete a um problema de saúde, um problema ambiental, então é um problema que é de todos.

E isso é um fator interessante no processo do método que a gente vai fazendo a transição. Porque muitos se sensibilizam pelo econômico, outros se sensibilizam pelo lado ambiental, outros se sensibilizam pelo alimento, e outros pela saúde. Por isso que não pode ter um método único para tudo. Cada um tem suas motivações para entrar a agroecologia, para defender esse tema, tem uns que entram puramente pela filosofia.

Então acho que é interessante o ENA porque ele tem essa diversidade que busca a organização das mulheres, do indígenas, dos negros, dos pequenos agricultores, que é esse universo que existe nas regiões, nos estados, nos biomas. A agroecologia tem então essa riqueza de conhecimento e na transição acho que as pessoas estão junto.

Porque há muitas vezes o conceito de que o homem não faz parte da natureza, a humanidade não faz parte da natureza, se analisa o ser humano fora da natureza. E não é verdade. Então, se nós transformamos a natureza, nós nos transformamos junto com ela. E se nos a envenenamos, nós nos envenenamos junto com ela. O agronegócio, que é o que hegemoniza esse modelo hoje, está envenenando não só a natureza, mas envenenando a humanidade como um todo.

Como você avalia o momento político em que acontece o III ENA?

O modelo de agricultura que está colocado é o que se desenvolve no Brasil há mais de 500 anos, baseado na mão de obra primeiro escrava, e depois no subemprego, e também no grande latifúndio. Hoje no governo e na sociedade essas forças estão presentes, e elas contrapõem a população que quer fazer mudanças e a que quer continuar o velho. Dentro do governo, essas forças políticas estão presentes, nessa aliança que está colocada hoje entre os partidos que dirigem o Estado brasileiro.

Acredito que assim como em todas as revoluções, não se faz revolução sem o povo. Simplificando, não se faz feijoada sem feijão. Então há também uma expectativa da nossa parte de que o governo faça pra gente. É óbvio que seria mais fácil, que o governo tivesse um posicionamento mais alinhado. Mas eu acho que haveria menos participação social. Não quero justificar a posição do governo em favor do agronegócio, mas quero dizer que é importante a participação social. O governo poderia ter feito mais? Obviamente poderia ter feito um universo de outras coisas mais importantes do que o que foi feito. Isso é uma verdade, e ninguém pode negar.

Agora ninguém pode negar que houve mudanças também. Podemos contar a história da sociedade brasileira em antes de 2003 e depois de 2003. Então eu creio que esse momento é muito importante no sentido de que a sociedade tem que pressionar pra esse governo dar um passo a frente. E esse passo a frente não pode ser pela direita. Esse passo à frente que ser dado à esquerda. E isso significa assumir posições que são difíceis de assumir. O povo precisa ir pra rua pra defender essas ideias da agroecologia, não pode ficar restrita às coisas internas, aos posicionamentos. Tem que ir pra rua pra defender isso. Todas as vitórias que houve do povo sempre foi dessa forma

Eu sinceramente não acredito que haja grandes mudanças, seja com os atuais candidatos hoje à presidência da república, ou com outros que virão. As mudanças foram feitas pelo povo, nunca vieram da burocracia, dos aparelhos do Estado. As mudanças sempre virão pela força do povo. O fator mais importante hoje é o povo se unir, se unificar em tornos de propostas claras e ir pra rua defender essas ideias.

Tivemos neste ano o VI Congresso do MST, agora o III ENA, e mais adiante a Jornada de Agroecologia. A mobilização em favor da agroecologia está crescendo?

Como se diz na filosofia, tudo muda. Isso é o fundamental que a gente precisa entender. Nós estávamos vivendo um período de descenso da mobilização social. Embora no ano passado tenha havido diversas mobilizações, umas mais espontâneas, outras mais organizadas. Não há dúvidas de que, na medida em que esse processo de industrialização, de domínio do grande capital aumenta, ele mesmo cria as condições para um novo ascenso da luta de massas. Então o ENA, o nosso congresso do MST, e outras mobilizações que estão acontecendo demonstram que o povo está querendo fazer luta, tá querendo mudança, tá querendo dar um passo à frente, ou dar dois passos à frente. O importante não é a quantidade de pessoas que se mobiliza. O mais importante é a proposta e a firmeza daqueles que se mobilizam para conquistá-la. Toda sociedade nunca vai se mobilizar, sempre vai ser uma parte dela. E é essa parte que se mobiliza hoje é a parte que está mais organizada na sociedade, do ponto de vista da luta de classes.

Qual é a síntese que a gente tira do ENA?

Esse sistema que estamos lutando para construir não se constrói só com os camponeses. Ele tem que ser um sistema que se constrói com a sociedade inteira. Os agrotóxicos não são um problema exclusivo dos camponeses, é um problema de toda a sociedade, porque todo mundo se alimenta. Por isso é que nós precisamos unir as forças para ir construindo um novo sistema de produção, um novo sistema de vida que não seja baseado puramente na criação e acumulação de capital. Creio que a sociedade está disposta a fazer isso. A grande questão é como ela se articula e se organiza em torno desse processo.

Ato em defesa da agroecologia fecha ponte entre Juazeiro e Petrolina

Ato em defesa da agroecologia fecha ponte entre Juazeiro e Petrolina

Texto: Gilka Resende, Eduardo Sá, Camila Nobrega
Colaboração: Moisés Matias

O poeta e agricultor Geraldo Gomes, de Minas Gerais, entoou o canto que fala direto ao coração de quem ama a vida: “Eu moro no meio do mato…”. E a música sanfonada desenhava a convivência com as flores, o canto dos pássaros, o som das águas, com as cores e os cheiros da vida ecológica. O hino foi cantado na abertura de uma das maiores manifestações agroecológicas realizadas no Brasil, que marcou o último dia do III Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), na segunda-feira (19).

Caminhada saiu da Univasf, local do III ENA, em direção à ponte que liga Juazeiro a Petrolina | Foto: Daniel Leon

Caminhada saiu da Univasf, local do III ENA, em direção à ponte que liga Juazeiro a Petrolina | Foto: Daniel Leon

Uma caminhada de cerca de dois quilômetros, saindo do campus da Univasf, em Juazeiro, até a ponte Presidente Dutra, que liga a cidade baiana a Petrolina, em Pernambuco. À frente estavam pelo menos 2 mil pessoas, entre agricultoras e agricultores da cidade e do campo, ribeirinhos, povos e populações tradicionais de todo país, ocupando a via de 800 metros. Em defesa da agroecologia, balançaram seus chapéus de palha, símbolo da agricultura camponesa, e saudaram o rio São Francisco.

Por cerca de uma hora os manifestantes fizeram a interdição da via, sob o sol forte e nuvens graúdas. A beleza das águas do Velho Chico, que resiste à destruição do agronegócio, encantava os presentes, que fizeram questão de alertar a população ao microfone: “esse rio não aguenta mais tanto agrotóxico das transnacionais”. O vento tremulava bandeiras vermelhas, feministas e muitas outras em defesa da agroecologia e, como dizia uma das canções do protesto, “anunciava esperanças”.

Ninguém melhor para animar o ato sobre a geração de um novo modelo de agricultura do que uma mulher grávida. Helen Santa Rosa, comunicadora popular de Minas Gerais, puxava a cantoria no carro de som com uma barriga de sete meses. “Agroecologia é vida! Agronegócio é morte!”, repetia acompanhada de um coro. “Irá chegar um novo dia, um novo céu, uma nova terra e um novo mar. E nesse dia o oprimido na sua voz a liberdade irá cantar. E nesse dia o forte, o grande e o prepotente irá chorar até o ranger dos dentes”, cantava ela, que integra o  Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas (CAA/NM).

Painel foi pendurado na ponte com o objetivo de dialogar com a sociedade sobre a agroecologia | Foto: Daniel Leon

Painel foi pendurado na ponte com o objetivo de dialogar com a sociedade sobre a agroecologia | Foto: Daniel Leon

Já na subida da ponte um painel medindo oito metros de altura por 12 de largura denunciou: “Agrotóxicos e transgênicos matam. Apoio a agroecologia por uma vida saudável no campo e na cidade”. O grande tecido passou por cima das cabeças que constroem na prática a agroecologia, antes se ser pendurada num dos lados ponte, com o objetivo de informar a população local sobre os riscos do atual modelo de desenvolvimento do país.

Miraci da Silva, de 61 anos, assim como muitos, não escondeu a emoção: “Essa é uma causa que a gente abraça pela libertação de um povo explorado por um sistema político dominante. Nós trabalhadores rurais precisamos lutar, precisamos nos unir contra um modelo de agricultura que só visa o lucro”, afirmou a agricultora do Mato Grosso.

Diálogo da agroecologia com a sociedade

O III ENA defende um modelo de cultivo de alimentos sem venenos e de respeito à natureza e às culturas, além da reforma agrária. Coincidentemente, um grafite bem no pé da ponte sob o rio São Francisco entrava em sintonia com o protesto. Nele, o desenho de um trabalhador à frente da bandeira do país. “O povo brasileiro ainda será respeitado e valorizado. Na bandeira será rescrito “ordem, progresso e respeito”, criticava uma frase em spray.

O trânsito ficou parado por quase uma hora e as reações foram diversas. A população se dividia entre reclamações e buzinaços em apoio. Os moradores de Juazeiro pararam para assistir a passeata. Em certo momento, crianças se amontoaram na porta de uma escola infantil. Riam, mandavam beijos, aplaudiam e abanavam as mãos para os manifestantes.

Ana Maria Pinheiro aplaudia e dançava, observando a marcha. Ela não sabia o que significava a palavra agroecologia, mas viu uma faixa com os dizeres “sem veneno” entendeu que o assunto. “Para mim esse movimento é dez. A carne não tem mais sabor, a galinha também não. As verduras parecem iguais e já quase não temos peixes. Tem química em todo lugar”, expôs.

Indígenas também defendem a agroecologia

A população indígena também fortaleceu o grito. Indígenas Kraho cantavam em sua língua originária a satisfação de estarem no III ENA. “Essa música diz que nós indígenas estamos como pequenas emas correndo, todas felizes”, disse Jecilda Crukoy, do Tocantins. Ela e outros integrantes de povos tradicionais relataram que essa foi uma oportunidade de saber o que “seus parentes passam em outros cantos do Brasil”.

“Viajamos três dias e três noites até Juazeiro. Estou conhecendo mais da agroecologia. Eu converso com outros indígenas, outras aldeias. É bom saber o que eles passam e se unir”, falou Bepnhoti Atydjare, da aldeia Floresta Protegida, no Pará. Ele conta que lá, por não conseguirem mais fazer seus cultivos, as comidas que chegam da cidade “trazem problema de barriga para as crianças”.

De acordo com Leosmar Terena, do Mato Grosso do Sul, os povos tradicionais estão denunciando o modelo de desenvolvimento predominante no Brasil. Para ele, a agroecologia é algo muito mais amplo que a dimensão econômica, ambiental e social, um modo de vida cujo sistema fortalece a relação do ser humano com o passado e sua relação com o futuro, se preocupando com as próximas gerações.

“Reforçamos a agroecologia como a única saída para a sociedade, acima de tudo um modo de vida. A agroecologia indígena é pensada no sentido da sustentabilidade em todas as suas dimensões, não podemos pensá-la sem a inclusão dos jovens, crianças, mulheres, e lideranças. A agroecologia é o fortalecimento de valores tradicionais, de humanidade e solidariedade”, explicou.

Outras manifestações se unem na ponte

Ato na ponte ganhou força com a chegada das mulheres | Foto: Fábio Caffé

Ato na ponte ganhou força com a chegada das mulheres | Foto: Fábio Caffé

Como afluentes outras três manifestações em defesa da agroecologia e contra o agronegócio, realizadas simultaneamente no início da manhã, se somaram à da ponte sob o rio São Francisco, por volta das 10h. Um dos atos reuniu cerca de 300 mulheres no escritório da Embrapa Semiárido em Petrolina. Elas reivindicaram que a empresa de pesquisa trabalhe dentro de uma perspectiva de produção de alimentos saudáveis e diversificados e também denunciaram a falta de políticas públicas voltadas para as mulheres camponesas.

De acordo com Noemi Krefta, do Movimento das Mulheres Camponesas (MMC), a sociedade precisa enxergar a importância feminina e a construção da agroecologia sem a participação efetiva delas pode ser uma produção orgânica, mas não será completa e agroecológica. “Falamos sobre a agricultura agroecológica camponesa e feminista que defendemos e também fazemos a denúncia de que nós não aceitamos alimentos geneticamente modificados. É uma ilusão dizer que precisa fazer biofortificação através da transgenia, isso não vai contemplar as nossas necessidades. Entendemos que a natureza tem de tudo para nos oferecer uma nutrição completa”, disse Noemi.

Manifestantes denunciaram os riscos dos transgênicos | Foto: Daniel Leon

Manifestantes denunciaram os riscos dos transgênicos | Foto: Daniel Leon

Também houve manifestação em frente à Monsanto, em Petrolina, uma das transnacionais responsáveis pela disseminação dos transgênicos e agrotóxicos. O terceiro ato ocorreu no Mercado do Produtor de Juazeiro, onde uma grande bola inflável alertando para o perigo dos mosquitos transgênicos da dengue chamava atenção. Nela, a letra T dentro de um triângulo amarelo, símbolo dos organismos geneticamente modificados. Um panfleto explicativo foi distribuído: “não há testes toxicológicos que comprovem não haver riscos no caso de picadas de fêmeas do mosquito modificado em animais ou humanos”, destacou um trecho.