Juventude contribui no debate sobre união entre campo e cidade

Juventude contribui no debate sobre união entre campo e cidade

A atividade, que faz parte da série de discussões do IV Encontro Nacional de Agroecologia (ENA), reuniu jovens de diversas regiões do país

 

“A gente precisa de incentivos para continuar no campo. A mídia e as escolas dizem que o melhor pra gente é estar na cidade, mas precisamos nos fortalecer para mostrar que nosso lugar é o campo. É de lá que a gente veio e dá certo morar lá.” A fala da agricultora Regilane Alves, de Itapipoca (CE), mostra a força das demandas das juventudes do Campo, das Águas, da Florestas e das Cidades presentes no IV Encontro Nacional de Agroecologia (ENA).

Seus desafios e propostas foram apresentados durante a Plenária das Juventudes na manhã de sábado, 2 de junho, no Parque Municipal. A atividade reuniu jovens de diversas regiões do país para contribuir com a discussão central do encontro: a união do campo e da cidade na luta pela agroecologia. Ao longo da reunião foram recitadas poesias e raps que dialogam com as reformas sociais defendidas pelos grupos presentes, entre elas, a reforma agrária e a igualdade racial, social e sexual.

As juventudes denunciaram as diversas violências sofridas, em especial as contra as mulheres e meninas, o extermínio da juventude negra, a lgbtifobia, o crescimento dos conflitos fundiários contra povos e comunidades tradicionais. Também trouxeram o repúdio ao intenso processo de fechamento das escolas do campo, fenômeno esse que contribui para o esvaziamento e a desterritorialização das juventudes camponesas.

Ao reafirmar que “A nossa ousadia é o campo e a cidade na luta pela agroecologia” eles anunciaram a urgência do rompimento da falsa dicotomia entre campo e cidade, compreendendo que só a união conseguirá produzir um novo paradigma para a produção de alimentos e o campo brasileiro. Para a coordenadora do Fórum da Juventude da Grande Belo Horizonte (BH), Lívia Sabino, as lutas da periferia não estão distantes do campo, uma vez que os dois meios convivem com o agrotóxico e com a falta de saneamento básico. Entretanto, ela exalta o aprendizado mútuo entre os participantes: “Aprendemos muito com o campo, como a não cimentar nossos quintais, a plantar mais e, principalmente, a cuidar da vida”, relata.

 
A assessora das juventudes pelo Centro Sabiá, Janaína Ferraz, reafirma essas necessidades. “A juventude demanda a visibilidade desses sujeitos de direito em sua diversidade, em suas cores, religiões e etnias. A permanência da juventude no campo e sua autonomia junto à unidade familiar e na unidade produtiva.”, declara.  A juventude quer debater gênero nas escolas, implementar a política de sucessão rural, defender territórios livres de agrotóxicos, aprofundar suas experiências de agricultura urbana e consolidar nossas autonomias.

Por Karol Borges e Pedro  Lovisi

Confira na íntegra a síntese da Plenária das Juventudes

Carta Politica Juventudes

 

Terceiro dia do IV ENA é marcado pela diversidade da Feira de Sabores e Saberes

Terceiro dia do IV ENA é marcado pela diversidade da Feira de Sabores e Saberes

Além da feira, os participantes participaram de plenárias e vivências em experiências agroecológicas bem sucedidas na grande BH

 

Começou neste sábado, 2 de junho, a Feira de Sabores e Saberes, parte da programação do IV Encontro Nacional de Agroecologia (ENA). Milhares de pessoas, de BH e participantes do evento, tiveram acesso à produção agroecológica de todos os cantos do Brasil, sem agrotóxico e a preço popular, além de manifestações artísticas e culturais gratuitas. A feira continua no domingo, 3 de junho, entre 9h e 13h.

Para Maira Santiago, do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e uma das organizadoras da feira, essa é uma grande chance de aproximação entre consumidor e produtor. “São mais de 80 produtores expondo desde hortaliças e frutas à sementes, alimentos processados, artesanatos produtos regionais e típicos de comunidades tradicionais, como indígenas, quilombolas e ribeirinhas. A feira mostra a diversidade que a agroecologia representa”. Ao todo, cem barracas estão distribuídas em quatro setores do Parque Municipal, organizadas de acordo com os biomas nos quais as famílias produtoras se localizam.

A produtora cultural, Amanda Rosiere, aproveitou a chance de comprar direto do produtor, sem intermediários. “Eu já frequento feiras agroecológicas e orgânicas aqui em Belo Horizonte e vim para conhecer produtos de outros lugares do país. Depois que tive filho, passei a me preocupar mais com a origem do alimento que ingerimos e a feira é uma ótima oportunidade para consumir com consciência e ter a garantia da procedência do que colocamos na mesa.”, comenta.

Por outro lado, Jussara Nunes, agricultora do assentamento Denis Gonçalves, em Juiz de Fora (MG), ressaltou a importância dessa feira para o fortalecimento da cultura feminista. Para ela, mulheres na frente da organização contribuem massivamente para uma nova visão social. Além disso, ela agradece a oportunidade de participar da feira. “É sempre bom e gratificante mostrar que ser Sem Terra não é só fazer uma ocupação, é também pensar no verde e no agroecológico para um mundo melhor.”

Vinicius Diniz, produtor de Florestal (MG), ressalta a importância da popularização da agroecologia. “A principal importância da Feira é propagar a maneira de consumir produtos naturais de forma sustentável e mitigar os impactos ambientais gerados pela produção.”, comemora.

Para os povos tradicionais indígenas esse tipo de difusão de saberes tem ainda mais importância, já que podem fortalecer a resistência pela aplicação de políticas públicas que reconhecem as plantas medicinais. Edna Marajoara, faz parte do Povo Juayana da Ilha de Marajó (PA) falou sobre a luta que as Pajés Marajoaras travam para terem seus saberes reconhecidos pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Elas comercializavam os produtos da linha ‘Flora do Marajó’. Criada com o apoio da Universidade Federal do Pará, os produtos são compostos por de 10 a 12 plantas medicinais.

Por Karoline Borges

Edição: Luciana Rios

Direitos para quem?

Direitos para quem?

Seminário reflete sobre direitos humanos durante o IV ENA

 

O seminário com o tema agroecologia e direitos humanos teve o objetivo de pensar direitos humanos a partir da agroecologia estabelecendo relações entre direito à culturalidade, a ancestralidade, o acesso a terra e a biodiversidade, além dos direitos ao território, educação, saúde, trabalho e soberania alimentar. No sentido de contribuir com a reflexão sobre o tema e estabelecer um diálogo com representantes dos movimentos sociais foram convidados representantes do Ministério Público Federal, Comissão Nacional de Direitos Humanos, Fórum Nacional de Combate aos Agrotóxicos e Transgênicos e Advogados Populares.

A metodologia do Seminário previu no primeiro momento uma apresentação de como funciona o Sistema de Justiça e suas atribuições. Posteriormente, foi aberto um espaço para o relato de violação de direitos a fim de criar uma oportunidade durante o IV ENA de provocar encaminhamentos de denúncias de representantes de movimentos sociais junto aos representantes do Ministério Público presentes no evento.

Segundo o Procurador Geral da República, Felício Lima, “o Ministério Público tem muitas atribuições, mas a gente atua onde existe a violação de direitos na defesa da sociedade. Quando a sociedade se sente violada aí entra o Ministério Publico, e muitas vezes a gente defende a sociedade contra o Governo que atinge, por exemplo, comunidades tradicionais. E, para ser mais concreto, dentro do Ministério Público temos várias Câmaras para temas especificas como, por exemplo: questão indígena, direito do cidadão e meio ambiente. É muito importante o diálogo e parceria com os movimentos sociais. Não podemos esquecer que vivemos em um dos países mais desiguais do mundo”, alerta.

Marco Antonio Delfino de Almeida da Coordenação do Grupo de Trabalho (GT) de Agrotóxicos e Transgênicos da 4ª Câmara da Procuradoria Geral da República (PGR) denuncia que  “o direito não foi feito para comunidades tradicionais, o direito foi feito para manter interesses econômicos e individualistas. Direitos Humanos é um assunto pouco trabalhado nas Faculdades de Direitos que estão aí para manter uma determinada ordem, e é preciso fazer um trabalho de conscientização junto aos promotores e procuradores da justiça. Importante ter essa dimensão e tentar fazer as denúncias via canais formais mas também por canais como Fóruns, e é importante que a sociedade se mobilize para isso. A gente está  aqui para estreitar o diálogo”. Os Fóruns têm como objetivo potencializar a ação dos movimentos sociais para que funcionem como instrumentos de controle social.

O Conselho Nacional de Diretos Humanos pode também abrir processos e no mês de agosto vão fazer Missões em todas as regiões do Brasil com objetivo de apurar denuncias mais significativas de caráter coletivo, recebidas pelos Conselhos. Após a apresentação dos Operadores de Justiça do Ministério Público Federal vários representantes do movimento social fizeram denúncias de violação de direitos nos seus territórios.

Por Bernardo Brant

Edição Elka Macedo

Duas mil pessoas marcham nas ruas de BH em prol da agroecologia amanhã

Duas mil pessoas marcham nas ruas de BH em prol da agroecologia amanhã

Concentração está marcada na Praça da Liberdade a partir das 8h

Amanhã (3), as duas mil pessoas de todas as regiões do Brasil – entre agricultoras e agricultores familiares, representantes de comunidades e povos tradicionais, de instituições da sociedade e de universidades – que participam do IV Encontro Nacional de Agroecologia (ENA) farão uma marcha pelas ruas de Belo Horizonte.  O ato público, organizado pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), é mais uma estratégia de comunicação com a população da capital mineira sobre a pauta da agroecologia. Além da agenda agroecológica, o ato também incorpora e ecoa as reivindicações do Sindicato Único dos Trabalhadores da Educação do estado de Minas Gerais.

“Queremos dizer o que é a agroecologia e o papel que ela cumpre para a funcionalidade da cidade com a produção e comercialização de alimentos saudáveis e a preservação da água, recursos naturais e florestas. E a nossa forma de expressar isso será através de manifestações culturais dos povos do campo e da cidade”, comenta Alexandre Pires, da ONG Centro Sabiá e integrante do Núcleo Executivo da Articulação Nacional de Agroecologia (ANA).

A concentração do ato será na Praça da Liberdade, às 8h, e a caminhada passará pela rua Augusto de Lima e vai até o Parque Municipal Américo Renné Giannetti, onde haverá um banquete composto em parte por produtos agroecológicos trazidos pelas delegações dos estados participantes do IV ENA. A população da cidade está convidada a participar desta marcha que vai colorir e movimentar as ruas centrais de BH.

O ato vai ser em prol das bandeiras de luta da reforma agrária, do direito à terra e ao território dos povos e comunidades tradicionais no campo, da democratização do espaço urbano, da comunicação como direito e da visibilidade das práticas das mulheres e das juventudes, entre outros.

Bandeirão

Além de bandeiras e faixas confeccionadas pelos territórios, a paisagem do ato será vestida também pelo Bandeirão de Luta: Agroecologia, Comunicação e Cultura, costurado a partir de retalhos decorados nos encontros estaduais preparatórios para o IV ENA. A junção de todas as partes foi feita hoje numa oficina realizada durante o encontro.

Cleide Vieira, de Belo Horizonte, integrante da Cooperativa dos Trabalhadores com Materiais Recicláveis da Pampulha (Coomarp), avalia como “ótima” sua participação na confecção do Bandeirão. “Pudemos estar com várias pessoas, de vários segmentos e vários Estados, compartilhando nossas lutas. No encerramento,  falei: ‘Gente, nós juntamos e separamos; e vamos levar cada um para sua região um pouco de conhecimento, de luta, da causa’”, relata a trabalhadora.

E as lutas são muitas. Cleide conta um pouco delas: “Acompanhamos a questão do Rio Doce, a da sequidão no Nordeste, e compartilhei o que estamos passando aqui. No 1º de maio [deste ano], um galpão nosso em Betim sofreu incêndio criminoso. Agora, na quinta-feira [31 de maio], outro galpão de parceiros nossos também foi incendiado. E 90% dos galpões hoje são compostos por mulheres, que têm filho, colocam filho na escola, os alimentam”, completa.

IV ENA – Durante todo o feriado de Corpus Christi, a população de Belo Horizonte e região metropolitana teve a oportunidade de entrar em contato com a diversidade cultural que pulsa nos territórios brasileiros que constroem cotidianamente estratégias solidárias e alternativas econômicas, políticas e organizativas. Sob o lema ‘Agroecologia e democracia unindo campo e cidade’, o IV ENA aglomerou diversas vivências urbanas e rurais pautadas em relações sociais baseadas na solidariedade e confiança mútua, na busca por autonomia e pela defesa e guarda da biodiversidade, da água e dos recursos naturais.

Por Paula Machado e Verônica Pragana

 

 

Seminários com 14 temas diferentes proporcionam uma tarde de trocas de experiências e caminhos para fortalecer a agroecologia

Seminários com 14 temas diferentes proporcionam uma tarde de trocas de experiências e caminhos para fortalecer a agroecologia

Até o dia 3 de junho, o IV Encontro Nacional de Agroecologia (ENA) reúne cerca de 2.000 pessoas, em sua maioria, agricultores e agricultoras, quilombolas, indígenas, com pelo menos 50% de mulheres. É um evento de proporções grandes, assim como seus objetivos, que também são extensos. Os participantes querem dar visibilidade a disputa de projeto de sociedade e às importantes lutas que acontecem cotidianamente nos territórios, destacando ações de quem está praticando a agroecologia. O Evento também deve revigorar o movimento agroecológico, reforçando o protagonismo de mulheres e jovens. Além disso, o ENA também quer aprofundar as conexões entre a cidade e o campo.

No contexto desta tarefa grandiosa, a tarde do segundo dia do IV ENA foi dedicada para seminários temáticos, que aconteceram simultaneamente e deram destaque para experiências concretas de agroecologia apresentadas pelos agricultores e suas organizações. Foram realizados 14 seminários, com os seguintes temas: Biodiversidade: bem comum, soberania alimentar e territorial dos povos do Brasil; Educação do Campo e Construção do Conhecimento Agroecológico; Mudanças Climáticas e Agroecologia; Comida de Verdade no Campo e na Cidade: Caminhos e Diálogos entre a Agroecologia e a Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (SSAN); Sem Feminismo não há Agroecologia; Agrotóxicos e Transgênicos; Direito à terra e território: conflitos e resistência dos povos do campo e da floresta; Agriculturas urbanas e direito à cidade; Comunicação e cultura: caminhos para a construção de conhecimentos agroecológicos, para o fortalecimento da democracia e para ampliação do diálogo entre campo e cidade; Saúde Integral e Medicina Tradicional; Água e Agroecologia: o papel da agroecologia na defesa das águas como bem comum; Construção Social de Mercados; Desafios e alternativas para o financiamento que viabilize  transição e consolidação da Agroecologia.

Os resultados de cada seminário serão subsídios para a elaboração da Carta Política do IV ENA, que será divulgada após o evento. Confira como foi a atividade em algumas das tendas.

Seminário Biodiversidade: bem comum, soberania alimentar e territorial dos povos do Brasil

Por Hugo Lima

O seminário trouxe três experiências: desafios das quebradeiras de coco de babaçu; trajetória do Programa Sementes do Semiárido da Articulação Semiárido Brasileiro (ASA); e a convivência da comunidade quilombola Corredor dos Munhoz, no bioma Pampa. Foram discutidos avanços, mas, principalmente, desafios para a defesa da biodiversidade, dentre eles o cerceamento do livre uso das sementes pelos povos que a cultivam, a defesa dos programas de acesso à água (como o Programa Cisternas), as diversas frentes legislativas que tentam esfacelar o que se conseguiu de controle do uso de agrotóxicos e também a defesa dos territórios tradicionais frente o avanço do agronegócio, da mineração e das empresas de energia e também a importância do fortalecimento da luta por reforma agrária.

Comida de Verdade no Campo e na Cidade: Caminhos e Diálogos entre a Agroecologia e a Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (SSAN)

Por Cristiana Andrade

A iniciativa de 17 anos da Rede Ecológica – Movimento Social de Consumidores, no Rio de Janeiro (RJ), foi apresentada na tarde de sexta (1/6), durante o seminário temático sobre comida de verdade. A experiência é uma rede on-line de compras coletivas, que busca evitar o desperdício e facilitar a vida do produtor rural e do consumidor. Hoje, são 12 núcleos na capital fluminense que recebem os itens e duas na Baixada Fluminense.  “A agenda de políticas públicas sobre essa temática é infinita e, para sermos atuantes, precisamos de consumidores engajados. O grande desafio é incluir mais pessoas no processo e colocar o agricultor cada vez mais próximo da população”, disse Annelise Fernandez, integrante da rede. Para Luis Carrazza, que está à frente da Central do Cerrado, um elo de cooperativas de pequenos produtores brasileiros, com sede em Brasília (DF), é necessário provocar o consumidor e fazê-lo pensar sobre “o que ele financia quando consome comida da agricultura familiar, que não é apenas um alimento sem agrotóxico, mas que está intrinsecamente ligado à melhor distribuição de terra; à conservação dos biomas, da água e da terra; a justiça social”, pontuou. A central reúne 21 organizações de oito estados e faz a comercialização dos produtos coletivamente.

Comunicação e cultura: caminhos para a construção de conhecimentos agroecológicos, para o fortalecimento da democracia e para ampliação do diálogo entre campo e cidade

Por Veronica Pragana

O potencial transformador da comunicação e da cultura se fez visível: a capacidade de evidenciar relações de poder que geram opressão, violência e subjugação, mas que são naturalizadas por fazerem parte do cotidiano das pessoas. “Para defender uma sociedade mais dona das próprias forças é preciso discutir os meios de comunicação”, disse Florence Poznanski, integrante da Frente Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC), de Minas Gerais. O Grupo de Teatro Amador do Polo Sindical da Borborema, na Paraíba, fez uma esquete sobre a relação de poder construída no ambiente doméstico entre homem e mulher. Do quilombo, a liderança Sinei Martins testemunha: “através da cultura, fazemos transformação e nos fazemos notar pelos gestores que nos veem como a comunidade que atrapalha o progresso”, disse. O projeto Curta Agroecologia, que produziu mais de 40 documentários sobre experiências agroecológicas e é resultado de uma parceria entre a ANA e o Canal Saúde, ligado à Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), foi outra experiência apresentada. Por último, foi apresentado o projeto Terreiro Cultural realizado no assentamento Denis Gonçalves, em Goianá (MG), com a parceria da Universidade Federal de Viçosa (UFV).

Saúde Integral e Medicina Tradicional

Por Manoela Vianna

“Quem nunca tomou um chá? Quem nunca foi benzido? E quem nasceu de mãe de umbigo [parteiras]?” Essas foram as perguntas provocadoras que abriram o seminário que enfatizou as conexões entre Saúde e Agroecologia. Lourdes Laureano, coordenadora da Articulação Pacari, afirmou que a medicina tradicional tem um lugar na agroecologia porque as pessoas que praticam essa medicina são as mesmas que cuidam do meio ambiente. Neusa representa uma iniciativa de Rondônia que existe há mais de 30 anos e hoje tem 600 multiplicadores, que disseminam as práticas da homeopatia popular. Um desses multiplicadores é Claudiano, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA). Ele é responsável por divulgar em sua região tratamentos de homeopatia na agricultura e na pecuária e deu muitos exemplos de tratamentos, como no combate a carrapatos em vacas. O público também conheceu a história da raizeira Tantinha que começou a produzir medicamentos caseiros para tratar um filho doente e seu primeiro remédio foi um xarope de folha de bananeira. Tantinha venceu a resistência inicial de seu marido, que acabou se envolvendo nas práticas intensamente.

Água e Agroecologia: o papel da agroecologia na defesa das águas como bem comum

Por Camila Paula

O seminário trouxe discussões acerca dos conflitos do hidro e agronegócio nos territórios e a experiência de convivência com o Semiárido e tecnologias sociais como forma de fortalecer as resistências e criar alternativas em defesa das águas. Cleidiane, do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB) falou do conflito em Correntina (BA), que desde os anos 70 vem se tornando menina dos olhos do hidro e agronegócio pela grande quantidade de águas que possui no território. Teca, do Movimento pelas Serras e Águas de Minas, trouxe a preocupação com a Serra da Gandarela numa luta de dez anos contra a mineração e o projeto Polo Minas da Vale. Itacíria Medeiros, agricultora do Assentamento Monte Alegre, Upanema (RN), falou da experiência de auto-organização de mulheres e de reúso de água. “Lá onde eu vivo a água era salobra. Veio o programa de 1 milhão de  cisternas (P1MC) e a gente começou a juntar água da chuva para as coisas da casa. Isso muda nossas vidas porque somos nós que vamos buscar a água. Hoje, além da cisterna pra casa eu tenho a cisterna calçadão pra poder plantar no quintal e mais uma tecnologia que nós mesmas, as mulheres, que construímos: o água viva, reúso de água”.

Desafios e alternativas para o financiamento que viabilize a transição e consolidação da Agroecologia

Por Catarina de Angola

Entre as experiências apresentadas, estava a assistência técnica e extensão rural (ATER) exercida pelo Estado, contemplando um financiamento que considera o planejamento de agricultoras e agricultores familiares, distinto de um pacote já pré-determinado pelas instituições financeiras foi apresentada pela EMATER Paraíba. O Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA) do Rio Grande do Sul, trouxe a experiência do Plano Camponês, financiamento construído pelo movimento e aliado a matrizes agroecológicas. A FASE apresentou a experiência do Fundo Dema, que acontece no Pará, de financiamento e projetos coletivos de povos da floresta. A Rede Bico Agroecológico, do Tocantins, apresentou sua experiência de acesso ao projeto Ecoforte.

Juventudes

Por Mariana Santos

Com representações de várias delegações do país, a juventude agroecológica marcou presença nos debates levantando pautas como a participação dos jovens na política, a importância do movimento estudantil e uma educação no campo de qualidade. Temas como o feminismo na agroecologia, a movimentação cultural liderada pelos jovens e o respeito a comunidades tradicionais e LGBTs também foram levantados durante o seminário.  “Agroecologia é nosso futuro e é a democracia”, defende Romário Bezerra, representante do Conselho Indígena de Roraima. A questão educacional foi tema de quase todos os depoimentos dos participantes do seminário, principalmente, frente a preocupante realidade do aumento nos números de escolas rurais fechadas nos últimos anos em todo o país. Sem bolsas nas universidades e falta de investimento em pesquisa e extensão, é a cada dia mais difícil para o jovem ter condições de se dedicar à agroecologia. Em meio ao grande processo de desmonte da educação pública que o Brasil vive, defender a manutenção e a força do movimento estudantil é demanda imediata da juventude do IV ENA.

Sem feminismo não há agroecologia

Helena Zelic

O seminário foi um importante espaço de reflexão e compartilhamento de experiências das mulheres agricultoras, pescadoras, quilombolas e indígenas de todo o Brasil. Lideranças de organizações que compõem o GT de Mulheres da ANA trouxeram a trajetória da agroecologia feminista: como surgiram as reflexões coletivas, como as mulheres precisaram ocupar espaços na agroecologia apesar de todo o machismo presente nestes espaços, como as pautas das mulheres se consolidaram dentro de diversos temas – vigilância sanitária, comercialização, entre outros -, que passam a ser tratados também a partir das experiências e necessidades das mulheres e adquirem um papel de intervenção e de formação de rede. Mulheres de todas as regiões do país falaram sobre suas vivências e trajetórias: o sucesso do uso das cadernetas agroecológicas, o resgate de sementes crioulas, o enfrentamento ao racismo, à divisão sexual do trabalho e ao controle machista de seus corpos e vidas. “Nós estamos sempre cuidando dos outros, mas quem cuida de nós?”, foi um questionamento que apareceu durante o seminário. Hoje, as mulheres atuantes na agroecologia ainda têm muitas dificuldades, mas, unidas, trilham um caminho diferente, com mais autonomia, mais liberdade e mais feminismo.

Por Leandro Uchoas, Manoela Vianna, Catarina de Angola 

Edição: Luciana Rios

Sintonia Agroecologia em Rede no IV ENA

Sintonia Agroecologia em Rede no IV ENA

AGROECOLOGIA EM REDE | A ferramenta que nasceu para olhar “tecnologias alternativas”, já foi um “banco de tecnologias apropriadas” e acabou se firmando como uma plataforma de catalogação de experiências pelos sujeitos que as protagonizam, começa um novo ciclo neste IV ENA. (mais…)