De Santiago do Chile a Juazeiro da Bahia: a gente não quer só comida; quer soberania, agroecologia e feminismo!

Mês de maio de muita soberania alimentar e agroecologia pautados pelo feminismo. Em Santiago do Chile a Alianza por la Soberanía Alimentaria de los Pueblos de América Latina y el Caribe convocou a IV Conferencia Especial para la Soberanía Alimentaria, na qual mulheres e homens encontraram-se para reforçar a defesa das sementes crioulas e dos bens comuns; por uma reforma integral, bem como pela valorização e reconhecimento do campesinato para garantir o direito humano a alimentação. Sem o mínimo dessas medidas não há como garantirmos Soberania Alimentar.

O que é Soberania Alimentar?

Para nós feministas a Soberania Alimentar é um princípio que organiza nossas vidas em contraposição ao sistema capitalista patriarcal anti-ecológico. Entendemos Soberania alimentar como o:

princípio que compreende o direito dos povos a alimentos saudáveis e culturalmente adequados, produzidos com métodos sustentáveis, e a autonomia dos povos para definir seus próprios sistemas agrícolas e alimentares, ou seja, o que, quanto e como produzir e consumir. A soberania alimentar defende que as necessidades e formas de vida daqueles que produzem, distribuem e consomem os alimentos estejam no centro desses sistemas, e não a reboque dos interesses do mercado e de grandes empresas. A soberania alimentar insiste na necessidade de mudar o ponto de vista político para alcançar a segurança alimentar e o direito à alimentação. Também afirma a mudança nas relações de poder, colocando aqueles que sofrem de injustiça no acesso ao alimento no centro das políticas (SOF – Sempreviva Organização Feminista/OXFAM, Economia Feminista e Soberania Alimentar – Avanços e Desafios, 2014).

Queremos a FAO promovendo a agroecologia com soberania!

Por isso, não diferente, as mulheres reunidas apresentaram documento na Conferência Regional da FAO (Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura), que ocorria paralelamente. Mulheres do campo e da cidade, camponesas, pescadoras, indígenas, trabalhadoras, militantes da agroecologia, dizendo não à vertiginosa mercantilização da vida, dos bens comuns, promovida pela globalização neoliberal e encampada pela FAO. Promoção da alimentação que pouco se alinha a soberania alimentar com agroecologia, mas sim a utilização de transgênicos, agrotóxicos e práticas difusionistas. Não podemos aceitar que a presidência, exercida pelo Brasil, promova o modelo de agronegócio como aquele capaz de superar o problema da fome no mundo.

Por que interessa à sociedade apoiar a agroecologia?

Essa é uma das perguntas que nos motiva a organizar e participar do III Encontro Nacional de Agroecologia (ENA) que em 2014 tem por tema “Cuidar da terra, alimentar a saúde, cuidar do futuro”. O III ENA é promovido pela Articulação Nacional de Agroecologia (ANA), uma rede nacional composta por organizações, redes regionais e movimentos sociais brasileiros.
Programado para acontecer de 16 a 19 de maio de 2014, em Juazeiro da Bahia, o III ENA reunirá milhares de pessoas de todo o Brasil, diretamente envolvidas na construção da agroecologia. Com um detalhe importante: 70% destes tem que ser agricultores familiares, camponeses, povos e comunidades tradicionais e pelo menos 50% mulheres! Como fazermos a transição agroecológica sem de fato visibilizarmos aqueles e aquelas que constroem esse outro rural?

mulheres apodiSem Feminismo, não há Agroecologia!

Se faz necessário que de fato o campo da Agroecologia compreenda e fortaleça o papel exercido pelas mulheres no processo de transição agroecológico. As mulheres são fundamentais na produção de auto-sustento em seus quintais, na promoção de saúde através das plantas medicinais, na manutenção da biodiversidade, para ficar só nesses exemplos. E também são protagonistas de resistência e luta contra os transgênicos, agrotóxicos, pelo acesso aos bens naturais, como lá em Apodi.

Para nós da Marcha Mundial das Mulheres, não há como querer mudar a vida das mulheres sem romper como esse modelo de produção, de consumo e de relação com os alimentos. E para nós é a Agroecologia esse outro paradigma necessário.
Por isso seguimos em marcha, em caravana agroecológica e feminista rumo a Juazeiro da Bahia, para com todos e todas promover o cuidado com a terra, alimentar-se de saúde, mudar nosso futuro com igualdade e autonomia para mulheres e homens.

Por Cíntia Barenho*, da Marcha Mundial das Mulheres (MMM)

(*) Cíntia Barenho é do Coletivo de Comunicadoras da Marcha Mundial das Mulheres, militante da MMM do Rio Grande do Sul e trabalha com agroecologia, especialmente na extensão rural. Foto: Gilvan Barreto/OXFAM.

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