Experiências em agroecologia na Tenda da Região Sul (PR/SC/RS)

IMG_0280-baixaPor Gabriel Amorim, do Movimento dos Pequenos Agricultores (MPA),

Na tenda da Região Sul, reunindo os Estados do Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul, conversamos com José Antônio Marfil, da Associação para o Desenvolvimento da Agroecologia (AOPA), que nos contou um pouco sobre as experiências em agroecologia articuladas na proposta da Rede Ecovida. A organicidade em torno da agroecologia há algum tempo na região, desde os anos oitenta que, segundo José Antônio, avançou na transição da agricultura convencional para a agroecológica, resultado do trabalho de grupos locais mais antigos que vêm atuando desde essa época. A proposta era, para além da certificação de seus produtos, os agricultores terem liberdade para se organizarem na comercialização de seus produtos, e incluindo as propriedades inteiras e suas dinâmicas no processo agroecológico.

Em 2006 começaram a trabalhar com grandes redes de mercado, se organizando para comercialização nesses espaços, mas esta experiência gerou grande frustração e muitas dívidas aos agricultores poise les não têm como conviver com o perverso modelo de mercado dessas grandes empresas. Isso gerou também uma insegurança alimentar, já que os agricultores vão parando de produzir de forma diversificada para comprar sua comida nos grandes mercados. 

IMG_0296-baixaComo objetivos dessa proposta agroecológica na região, busca-se que cada um não fique somente trabalhando em seu próprio espaço, nem fique só na roça, mas se aglutine com jovens, idosos e outros sujeitos em torno da proposta da agroecologia. E de forma conjunta com uma contínua formação agroecológica, na qual todos aprendem e ensinam construindo o processo coletivamente. Através da certificação participativa, mas toda a propriedade tem de estar de acordo com as propostas da agroecologia.

Tendo como um dos principais desafios as dinâmicas de abastecimento e comercialização, este é também um dos diferenciais da proposta da Rede Ecovida. Comercializando nos chamados circuitos curtos em vez das grandes redes, envolvendo feiras locais, em espacos públicos cedidos ao comércio ou armazenamento. Pois entendem que não adianta só produzir, e precisa ter meios de comercializar essa produção. Existem também os grandes circuitos, feitos com caminhão para outras regiões, incluindo algumas de São Paulo. O caminhão, conduzido também por um agricultor, vai deixando parte da produção pelo caminho, nas chamadas “estações”, onde se abastece com outros produtos e garante uma feira com diversidade de produção. Essa proposta de estimular a diversidade acabou levando também as possibilidades de vendas institucionais, pelo Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE).

Ao contrário do que o governo diz, das 3000 famílias que fazem parte da Rede 2500 participam do PAA, comercializando de 60 a 70 toneladas de produtos por semana. Enquanto uma das principais lutas que enfrentam na região é o veneno e a transgenia, contaminando geneticamente diversas regiões e dificultando a certificação dos produtos. No Paraná, por exemplo, chega-se a utilizar até 2kg de agrotóxicos por metro quadrado. Outras lutas são pela terra e pelas Sementes Crioulas, com a produção de mudas, sem contaminação transgênica, pelos agricultores. Um desafio também é a legalização das unidades da agroindústria. Em relação às políticas governamentais para os pequenos agricultores, a questão de créditos voltados para a produção também e muito ruim, mas na luta pela moradia no campo houve avanços por conta da atuação sindical e associações locais, como a Assesoar.
O debate na tenda contou também com a participação de pessoas de outras regiões, contando um pouco de suas experiências e fazendo um paralelo com as propostas apresentadas. Em meio a lutas e seus avanços fica mais essa experiência agroecológica. O produtor e o consumido saem ganhando nesse processo. Há a rastreabilidade, o consumidor sabe de onde veio o produto, a região, o processo de produção e sobre sua qualidade, o que leva à valorização do produtor e da vida. Hoje, por exemplo, há muitas mulheres e jovens que haviam deixado o campo e voltaram para trabalhar em suas propriedades.

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